CAPÍTULO 05



FAITH

   JÁ TINHAM SE passado horas que eu estava sentada naquele sofá e ninguém me diz nada. Tudo bem, não era tanto tempo assim, mas já estava sentindo meu bumbum ficar dormente de tanto esperar ao lado daquele homem estranho.
   Eu não tinha a menor ideia de como vim parar aqui. Apenas acordei com uma dor de cabeça forte em um quarto estranho. Pelo menos eu já tinha tirado aquelas roupas curtas e agora estava um pouco mais confortável com as minhas de agora. A minha mochila tinha voltado para mim sem o meu celular e eu não pude protestar contra isso ou temeria levar outro tapa. Estava pensando em como eu falaria com Bryan novamente.
 -Está com fome? – O moço sentado ao meu lado perguntou gentilmente.
   Ele parecia ter uns vinte e quatro anos e era muito bonito, mas não tanto quanto seu amigo de mais cedo. Mas o que estava pensando? Não poderia pensar nessas coisas com os homens que acabaram por me sequestrarem, e sabe lá o que farão comigo depois.
   Ainda tinha medo, ainda mais daquele tal Martin.
 -Um pouco – Respondo com a voz baixa.
  Os seus olhos de cor azul bebê reluziam com seu sorriso gentil escancarado no seu rosto nevado. Os seus cabelos aloirados penteados em um pequeno topetinho na lateral da sua testa me faz pensar que era um homem vaidoso. Se não me engano, seu nome era Mike, e ele não parecia ser uma pessoa má, mas ainda sim não confiava.
 -Não vou te machucar, ok? Vou mandar a Carmem preparar alguma coisa para você e depois ela te mostra o quarto que você vai ficar – Ele se levanta para ir à cozinha, mas eu o interrompo.
 -O que vocês vão fazer comigo? – Questiono fitando meus dedos.
   Essa pergunta ainda perambulava pela minha cabeça desde que Alec me trouxe até aqui.
 -Olha, você não vai poder mais ter a sua vida de volta, ok? Jim te vendeu para pertencer ao Jesse, e agora você é digamos... a acompanhante dele. Você é dele agora. Não tem mais volta – Mike explica com tanta calma que me sinto confusa.
   Eu já fui vendida? Quem é Jesse? Como assim serei sua acompanhante? Pelo que eu me lembro ele era o homem de olhos brilhantes que discutia com ele mais cedo.
   Ele era muito para mim, sem chances. Até parece que um homem como ele que provavelmente pode ter todas em seus pés iria me querer como acompanhante dele.
   Ainda me lembro do quão nervoso ele estava. As suas veias saltando pelo seu pescoço, sua voz rouca e exasperada. Seu punho travado pela raiva o fazia parecer um homem bravo. O seu olhar fuzilante sobre mim me fazia tremer da cabeça aos pés, e só de pensar nele meus ombros se encolhem. Ele é com certeza intimidador.
 -Mike, certifique-se de ajudar o Jesse com Kurt hoje à tarde, ele vai precisar de você com ele no carregamento – Paro de pensar assim que ouço a voz ríspida de Martin atravessado à sala.
   Engulo minha saliva sentindo sede por não ter bebido ou comido nada desde ontem de tarde. Estava morrendo de fome.
 -Eu vou Martin, pode deixar – Mike rola os olhos indo em direção à cozinha me deixando a sós com aquele homem que eu tanto temia.
   Molho os lábios mais uma vez sendo obrigada a sentir o gosto amargo dos meus beiços.
   Martin me fitava com um sorriso no rosto como se tivesse pensando em alguma ideia boa. Estava me sentindo totalmente assustada com aquele seu olhar estranho pairando sobre mim e mal via a hora de Mike chegar logo.
   Até que seus olhares são desviados para a porta da sala de onde ele saiu.
-Ainda está aqui? – O homem dos olhos brilhantes rola as suas íris para o mesmo.
   Martin murmura algum palavrão saindo de vista pela porta de entrada deixando apenas eu e o tal Jesse a sós com aquele olhar debochado que ele dera para mim.
   Isso de alguma forma fez eu me sentir mal, mas não pude deixar de notar o quão lindo era.
   Alto, ombros largos, pele alva e macia como as nuvens. Lábios finos e aveludados de uma tonalidade rosada e olhos cor âmbar mais brilhantes que o sol. Os seus cabelos macios no tom louro escuro bagunçado despreocupadamente o deixavam com um ar mais sexy. Ainda mais com as suas tatuagens que dariam para enxergar por fora da gola “V” da camisa.
   Céus, ele era lindo. Eu estava tão hipnotizada pelas suas íris encantadoras que não tive a decência de me recompor e notar que estava perecendo uma idiota fitando o pouquinho de tatuagem se sobressaindo de seu peito. Ruborizo minhas bochechas virando o rosto para a parede oposta desviando o meu olhar. Ele parece notar a minha mudança repentina e ri pelo nariz.
   Isso me fez corar mais ainda.
-Caramba, eu nunca vi uma garota corar tanto como você – Me viro para olhar em seus olhos de novo vendo que me analisava de cabeça aos pés com um semblante curioso.
   Acho que ele deveria estar pensando em como eu poderia me vestir tão mal assim, mas essa era a única roupa que tinha me sobrado da minha mochila.
 -Qual é seu nome mesmo? – Ele pergunta com a voz rouca me eletrizando por inteira.
   Estava envergonhada apenas por tê-lo ao meu lado.
 -Faith – Respondo baixinho.
 -Faith... – Ele repete meu nome me fitando com cautela – Acho que sabe por que está aqui, e antes de qualquer coisa saiba que não vamos ter nada. Você finge que somos um casalzinho bonitinho até isso tudo acabar e eu te deixo livre, ok? Não vai durar muito – Ele sorri cinicamente de canto a canto dos lábios botando suas mãos dentro dos bolsos da calça jeans.
   Fito o chão me sentindo ruborizada novamente, tentando não pensar no assunto.
   O lado bom disso era que eu poderia ser livre depois.
 -Tudo bem... – Sussurro em uma voz quase inaudível.
 -A propósito, meu nome é Jesse, Jesse Jackson. Vai ouvir muito esse nome, até por que eu tenho muitos contatos. Sabe o isso quer dizer? Que se caso você tentar fugir ou contar pra alguém sobre nós, adivinha? Você morre gata – Jesse pisca sorrindo e se retira em passos lentos para a cozinha.
   Eu não fazia ideia do porquê de Jim ter me posto justo para esse serviço. Ele poderia ter a mulher que quisesse para acompanhá-lo, e, por fim, escolheu justo uma adolescente pobre que não tinha onde cair morta. Isso tudo soava estranho demais. Jesse parecia ser uma pessoa de outro mundo. Aquelas pessoas pareciam ser de outro mundo. Teria que me acostumar em fazer o que era obrigada a fazer ali. O lado bom nisso é que eu irei ter o que comer e serei livre quando tudo isso acabar, como Jesse disse.
   Só de eu pensar em nós dois andando juntos por aí já começo a me sentir estranha. Mas em que tipo de lugares eu acompanharia ele, afinal? Do jeito que ele falava, parecia ser alguém famoso que tinha que forjar seu namoro, casamento ou sei lá o que era aquilo, só para ganhar mídia e status com seu público. Se fosse analisar bem, poderia gargalhar de tudo aquilo. Na onde um homem lindo e mais velho ficaria com uma pirralha igual a mim?
 -Dona Faith – Um chamado me desperta dos meus pensamentos.
   Me obrigo a olhar em sua direção notando que tinha uma senhora baixinha – não muito idosa - me observando. Ela deve ser a tal Carmem que Mike falou.
 -Sim? – Refresco a minha garganta com o que ainda me resta de líquido no corpo.
   Estava morrendo por dentro para poder beber alguma coisa.
 -O senhor Mike me pediu pra preparar algo para você comer. Sua comida já está na mesa – Ela sorri e eu também.
  Nunca fiquei tão feliz em toda a minha vida por falar sobre comida.
 -Obrigada – Me levanto daquele sofá sintético sentindo minhas pernas voltarem a doer.
   Ainda não tinha me recuperado totalmente, mas nada que uma boa noite de sono em uma cama de verdade não resolvesse.
   Acompanho dona Carmem até a cozinha trocando poucas palavras com ela no caminho. Ela parecia ser uma mulher gentil, e me tratou super bem, ao contrário de muitos que eu já conheci por aqui.
   Andando pela casa noto em como aquela mansão era imensa. Fico me perguntando quantos empregados são necessários para limpar toda aquela casa.
   Era tudo tão lindo.
   As decorações, o piso, os cômodos, era tudo tão chique e confortável. Paredes revestidas com cerâmica branca, detalhadas com um toque de tinta dourada no início do teto que desciam até o solo. A escada enorme de mármore com o corrimão de madeira maciça me lembrava daqueles casarões de gente rica que eu vejo na TV.
   Só faltava um piano para ficar tudo perfeito, mas nem de longe Jesse parecia se interessar em tocar.
   Fico de boca aberta com tanta comida que me aguardava naquela mesa. Carmem deve ter preparado aquele “banquete” todo para mais de uma pessoa, pois aquele tanto daria para alimentar uma família inteira. Frutas, suco de laranja, pão fresquinho, manteiga, queijos e mais um monte de comida. Eu até senti vontade de sorrir ao ver toda aquela comida esperando por mim.
 -Coma a vontade, dona Faith. Depois que terminar de comer, eu posso te mostrar o seu quarto – Carmem sorri se retirando e me deixando sozinha com aquelas gostosuras.
   Perco a conta de quantas vezes repeti meu prato em menos de alguns minutos. Toda aquela comida tinha até me deixado de bom humor. Eu nunca comi tanto em toda a minha vida. Me sentia pesada só de pôr os pés no chão.
   Carmem me mostra o quarto em que vou dormir deixando as toalhas organizadas no banheiro para eu poder me banhar.
   Era um quarto bom demais pra ser verdade. Uma janela branca do canto esquerdo da parede sob o peitoril de um baú revestido de um acolchoado com travesseiros por cima. Perfeito para ler. O canto que eu tinha mais gostado ali. Uma cama de casal arredondada só para mim com dois criados mudos de madeira clara dos lados direito e esquerdo, e um abajur azul em cima de cada. Paredes na cor branca, cortinas grandes no tom azul claro e um tapete abstrato no meio. Estava mais do que perfeito.
 -Não se esqueça de me chamar quando precisar de ajuda. Vou estar lá em baixo – Carmem diz antes de se retirar novamente.
   Até que estava tudo bem em me adaptar com tudo isso, mas ainda sim me sentia desconfortável com essa situação. Ainda tinha medo daqueles homens e de Jim.
   Não estava com saudade de casa, mas me sentia curiosa em saber como Jonny deve estar. Provavelmente estaria rondando bêbado pelas ruas e bares da cidade. Ainda não conseguia sentir ódio dele, ainda sentia pena. Jonny era uma pessoa atormentada por espíritos do passado. Acho o que ele tinha se chamava rancor, só não sabia pelo qual motivo. Acho que foi por eu ter nascido e minha mãe ter morrido logo cedo.
    Como se tivéssemos trocado de vidas.
  Tento não pensar nisso prendendo meus cabelos embaraçados em um coque e me dispo em direção ao banheiro. Adentro no boxe deixando a água quentinha cair sobre meu corpo e relaxo os meus ombros. Suspiro de olhos fechados.
   Aquilo era tão bom.
   Me sentia em um spa com aquele luxo todo. Meu corpo já não estava tão roxo como antes, mas ainda continha marcas. Estava dolorida também, e muito cansada.
   Me seco com uma das toalhas que Carmem tinha deixado dentro dos armários e me troco pondo um short não muito curto de algodão junto com uma regatinha rosa que tinha guardado na mochila.
   Me deito na cama sentindo aquele prazer dos colchões amaciarem minha pele, e adormeço em menos de cinco minutos.



Nenhum comentário:

Postar um comentário