FAITH
JÁ
TINHAM SE passado horas que eu estava sentada naquele sofá e ninguém me diz
nada. Tudo bem, não era tanto tempo assim, mas já estava sentindo meu bumbum
ficar dormente de tanto esperar ao lado daquele homem estranho.
Eu não tinha a menor ideia de como vim parar
aqui. Apenas acordei com uma dor de cabeça forte em um quarto estranho. Pelo
menos eu já tinha tirado aquelas roupas curtas e agora estava um pouco mais
confortável com as minhas de agora. A minha mochila tinha voltado para mim sem
o meu celular e eu não pude protestar contra isso ou temeria levar outro tapa.
Estava pensando em como eu falaria com Bryan novamente.
-Está com fome? – O moço sentado ao meu lado
perguntou gentilmente.
Ele parecia ter uns vinte e quatro anos e era
muito bonito, mas não tanto quanto seu amigo de mais cedo. Mas o que estava pensando? Não poderia pensar nessas coisas com os
homens que acabaram por me sequestrarem, e sabe lá o que farão comigo depois.
Ainda tinha medo, ainda mais daquele tal Martin.
-Um pouco – Respondo com a voz baixa.
Os seus olhos de cor azul bebê reluziam com seu
sorriso gentil escancarado no seu rosto nevado. Os seus cabelos aloirados
penteados em um pequeno topetinho na lateral da sua testa me faz pensar que era
um homem vaidoso. Se não me engano, seu nome era Mike, e ele não parecia ser
uma pessoa má, mas ainda sim não confiava.
-Não vou te machucar, ok? Vou mandar a Carmem
preparar alguma coisa para você e depois ela te mostra o quarto que você vai
ficar – Ele se levanta para ir à cozinha, mas eu o interrompo.
-O que vocês vão fazer comigo? – Questiono
fitando meus dedos.
Essa pergunta ainda perambulava pela minha cabeça
desde que Alec me trouxe até aqui.
-Olha, você não vai poder mais ter a sua vida de
volta, ok? Jim te vendeu para pertencer ao Jesse, e agora você é digamos... a acompanhante dele. Você é dele agora.
Não tem mais volta – Mike explica com tanta calma que me sinto confusa.
Eu já fui vendida? Quem é Jesse? Como assim serei
sua acompanhante? Pelo que eu me lembro ele era o homem de olhos brilhantes que
discutia com ele mais cedo.
Ele era muito para mim, sem chances. Até parece
que um homem como ele que provavelmente pode ter todas em seus pés iria me
querer como acompanhante dele.
Ainda me lembro do quão nervoso ele estava. As
suas veias saltando pelo seu pescoço, sua voz rouca e exasperada.
Seu punho travado pela raiva o fazia parecer um homem bravo. O seu olhar
fuzilante sobre mim me fazia tremer da cabeça aos pés, e só de pensar nele meus
ombros se encolhem. Ele é com certeza intimidador.
-Mike,
certifique-se de ajudar o Jesse com Kurt hoje à tarde, ele vai precisar de você
com ele no carregamento – Paro de pensar assim que ouço a voz ríspida de Martin
atravessado à sala.
Engulo minha
saliva sentindo sede por não ter bebido ou comido nada desde ontem de tarde. Estava
morrendo de fome.
-Eu vou
Martin, pode deixar – Mike rola os olhos indo em direção à cozinha me deixando
a sós com aquele homem que eu tanto temia.
Molho os
lábios mais uma vez sendo obrigada a sentir o gosto amargo dos meus beiços.
Martin me fitava
com um sorriso no rosto como se tivesse pensando em alguma ideia boa. Estava me
sentindo totalmente assustada com aquele seu olhar estranho pairando sobre mim
e mal via a hora de Mike chegar logo.
Até que seus
olhares são desviados para a porta da sala de onde ele saiu.
-Ainda está
aqui? – O homem dos olhos brilhantes rola as suas íris para o mesmo.
Martin
murmura algum palavrão saindo de vista pela porta de entrada deixando apenas eu
e o tal Jesse a sós com aquele olhar debochado que ele dera para mim.
Isso de
alguma forma fez eu me sentir mal, mas não pude deixar de notar o quão lindo
era.
Alto, ombros
largos, pele alva e macia como as nuvens. Lábios finos e aveludados de uma
tonalidade rosada e olhos cor âmbar mais brilhantes que o sol. Os seus cabelos
macios no tom louro escuro bagunçado despreocupadamente o deixavam com um ar
mais sexy. Ainda mais com as suas tatuagens que dariam para enxergar por fora
da gola “V” da camisa.
Céus, ele era lindo. Eu estava tão
hipnotizada pelas suas íris encantadoras que não tive a decência de me recompor
e notar que estava perecendo uma idiota fitando o pouquinho de tatuagem se
sobressaindo de seu peito. Ruborizo minhas bochechas virando o rosto para a
parede oposta desviando o meu olhar. Ele parece notar a minha mudança repentina
e ri pelo nariz.
Isso me fez
corar mais ainda.
-Caramba, eu
nunca vi uma garota corar tanto como você – Me viro para olhar em seus olhos de
novo vendo que me analisava de cabeça aos pés com um semblante curioso.
Acho que ele
deveria estar pensando em como eu poderia me vestir tão mal assim, mas essa era
a única roupa que tinha me sobrado da minha mochila.
-Qual é seu
nome mesmo? – Ele pergunta com a voz rouca me eletrizando por inteira.
Estava
envergonhada apenas por tê-lo ao meu lado.
-Faith –
Respondo baixinho.
-Faith... –
Ele repete meu nome me fitando com cautela – Acho que sabe por que está aqui, e
antes de qualquer coisa saiba que não vamos ter nada. Você finge que somos um
casalzinho bonitinho até isso tudo acabar e eu te deixo livre, ok? Não vai
durar muito – Ele sorri cinicamente de canto a canto dos lábios botando suas
mãos dentro dos bolsos da calça jeans.
Fito o chão
me sentindo ruborizada novamente, tentando não pensar no assunto.
O lado bom disso era que eu poderia ser livre
depois.
-Tudo bem...
– Sussurro em uma voz quase inaudível.
-A
propósito, meu nome é Jesse, Jesse
Jackson. Vai ouvir muito esse nome, até por que eu tenho muitos contatos. Sabe
o isso quer dizer? Que se caso você tentar fugir ou contar pra alguém sobre
nós, adivinha? Você morre gata – Jesse pisca sorrindo e se retira em passos
lentos para a cozinha.
Eu não fazia
ideia do porquê de Jim ter me posto justo para esse serviço. Ele poderia ter a
mulher que quisesse para acompanhá-lo, e, por fim, escolheu justo uma
adolescente pobre que não tinha onde cair morta. Isso tudo soava estranho
demais. Jesse parecia ser uma pessoa de outro mundo. Aquelas pessoas pareciam
ser de outro mundo. Teria que me acostumar em fazer o que era obrigada a fazer
ali. O lado bom nisso é que eu irei ter o que comer e serei livre quando tudo
isso acabar, como Jesse disse.
Só de eu
pensar em nós dois andando juntos por aí já começo a me sentir estranha. Mas em
que tipo de lugares eu acompanharia ele, afinal? Do jeito que ele falava,
parecia ser alguém famoso que tinha que forjar seu namoro, casamento ou sei lá
o que era aquilo, só para ganhar mídia e status com seu público. Se fosse
analisar bem, poderia gargalhar de tudo aquilo. Na onde um homem lindo e mais
velho ficaria com uma pirralha igual a mim?
-Dona Faith
– Um chamado me desperta dos meus pensamentos.
Me obrigo a
olhar em sua direção notando que tinha uma senhora baixinha – não muito idosa -
me observando. Ela deve ser a tal Carmem que Mike falou.
-Sim? –
Refresco a minha garganta com o que ainda me resta de líquido no corpo.
Estava
morrendo por dentro para poder beber alguma coisa.
-O senhor Mike me pediu pra preparar algo para você comer. Sua comida já está na mesa – Ela
sorri e eu também.
Nunca fiquei
tão feliz em toda a minha vida por falar sobre comida.
-Obrigada –
Me levanto daquele sofá sintético sentindo minhas pernas voltarem a doer.
Ainda não
tinha me recuperado totalmente, mas nada que uma boa noite de sono em uma cama
de verdade não resolvesse.
Acompanho
dona Carmem até a cozinha trocando poucas palavras com ela no caminho. Ela
parecia ser uma mulher gentil, e me tratou super bem, ao contrário de muitos
que eu já conheci por aqui.
Andando pela casa noto em como aquela mansão era
imensa. Fico me
perguntando quantos empregados são necessários para limpar toda aquela casa.
Era tudo tão
lindo.
As
decorações, o piso, os cômodos, era tudo tão chique e confortável. Paredes
revestidas com cerâmica branca, detalhadas com um toque de tinta dourada no
início do teto que desciam até o solo. A escada enorme de mármore com o
corrimão de madeira maciça me lembrava daqueles casarões de gente rica que eu
vejo na TV.
Só faltava
um piano para ficar tudo perfeito, mas nem de longe Jesse parecia se interessar
em tocar.
Fico de boca
aberta com tanta comida que me aguardava naquela mesa. Carmem deve ter
preparado aquele “banquete” todo para mais de uma pessoa, pois aquele tanto daria para alimentar uma
família inteira. Frutas,
suco de laranja, pão fresquinho, manteiga, queijos e mais um monte de comida. Eu
até senti vontade de sorrir ao ver toda aquela comida esperando por mim.
-Coma a
vontade, dona Faith. Depois que terminar de comer, eu posso te mostrar o seu
quarto – Carmem sorri se retirando e me deixando sozinha com aquelas
gostosuras.
Perco a
conta de quantas vezes repeti meu prato em menos de alguns minutos. Toda aquela
comida tinha até me deixado de bom humor. Eu nunca comi tanto em toda a minha
vida. Me sentia pesada só de pôr os pés no chão.
Carmem me
mostra o quarto em que vou dormir deixando as toalhas organizadas no banheiro
para eu poder me banhar.
Era um
quarto bom demais pra ser verdade. Uma janela branca do canto esquerdo da
parede sob o peitoril de um baú
revestido de um acolchoado com travesseiros por cima. Perfeito para ler. O
canto que eu tinha mais gostado ali. Uma cama de casal arredondada só para mim
com dois criados mudos de madeira clara dos lados direito e esquerdo, e um
abajur azul em cima de cada. Paredes na cor branca, cortinas grandes no tom
azul claro e um tapete abstrato no meio. Estava mais do que perfeito.
-Não se esqueça de me chamar quando precisar de ajuda. Vou
estar lá em baixo – Carmem diz antes de se retirar novamente.
Até que estava tudo bem em me
adaptar com tudo isso, mas ainda sim me sentia desconfortável com essa
situação. Ainda tinha medo daqueles homens e de Jim.
Não estava com saudade de casa,
mas me sentia curiosa em saber como Jonny deve estar. Provavelmente estaria
rondando bêbado pelas ruas e bares da cidade. Ainda não conseguia sentir ódio
dele, ainda sentia pena. Jonny era uma pessoa atormentada por espíritos do
passado. Acho o que ele tinha se chamava rancor, só não sabia pelo qual motivo.
Acho que foi por eu ter nascido e minha mãe ter morrido logo cedo.
Como se tivéssemos trocado de vidas.
Tento não pensar nisso prendendo
meus cabelos embaraçados em um coque e me dispo em direção ao banheiro. Adentro
no boxe deixando a água quentinha cair sobre meu corpo e relaxo os meus ombros.
Suspiro de olhos fechados.
Aquilo era tão bom.
Me sentia em um spa com aquele
luxo todo. Meu corpo já não estava tão roxo como antes, mas ainda continha
marcas. Estava dolorida também, e muito cansada.
Me seco com uma das toalhas que Carmem tinha deixado
dentro dos armários e me troco pondo um short não muito curto de algodão junto
com uma regatinha rosa que tinha guardado na mochila.
Me deito na cama sentindo aquele
prazer dos colchões amaciarem minha pele, e adormeço em menos de cinco minutos.


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