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CAPÍTULO 04
JESSE
JÁ
IRIAM DAR duas horas da manhã e eu estava exausto. Eu não aguentava mais ter
que cuidar de tudo isso sozinho. Agora com meu pai doente Mike iria se ver
comigo. Ele não podia ver um rabo de saia que já sairia correndo e me deixando
sozinho com um monte de coisa para resolver. Tudo bem que eu não sou flor que
se cheire, mas sabia separar muito bem meus momentos de diversão com coisa
séria.
Eu
nunca pensei que fosse virar um Martin da vida.
Se aquele desgraçado resolver morrer eu estou
fodido. Era para eu estar curtindo aquela festa junto com Mike enquanto poderia
estar fodendo todas que eu quisesse neste exato momento.
Suspiro frustrado vendo que já tinha me esgotado.
Despi-me rapidamente para debaixo do chuveiro
tomando uma ducha de cinco minutos e saio com a toalha enrolada na cintura.
Seco meu corpo em frente ao espelho e caio de cara no meu colchão sentindo o
sono chegar. Só de pensar que amanhã teria um milhão de coisas para resolver me
sinto exausto de novo.
∞
Acordo com a claridade do sol invadindo meu
quarto e queimando diretamente meu rosto. Pego o meu celular e vejo que ainda
eram oito horas da manhã e eu já escutava uma gritaria no andar de baixo.
Puta
merda, será que eu não poderia mais descansar em paz em pleno sábado?
Levanto da minha cama depois de fazer minha
higiene matinal e me visto. Mike tagarelava no celular feito uma matraca.
Semicerro os olhos para ele já vendo que tomaria um sermão hoje, mas paro
estático quando noto uma presença de mais alguém ali.
Uma garota. Definidamente uma garota na qual eu
nunca tinha visto em toda minha vida. Os seus olhos negros saltados pelo seu
rostinho pequeno de boneca chegavam a ser engraçados pelo susto que eu dera
quando apareci de surpresa. Dava até pena pelo jeito que ela me encarava, e eu
só pensava em porque diabos tinha uma adolescente sentada no meu sofá.
-Falo com você quando chegar aqui. O seu filho
está aqui puto da vida e eu tenho que desligar – Mike desliga o maldito celular
e me fita sem ter o que dizer.
Ele parecia mais assustado que a garota.
-Que porra é essa, Mike? – Eu semicerro meus
olhos.
-Desculpa, eu não sabia que Martin tinha
planejado isso e... – Interrompo sua fala com a mão.
-An? Ontem à noite você me deixou sozinho depois
de um monte de coisas para resolver. Você disse que estaria comigo nessa, sabe
que eu posso te matar se vacilar comigo de novo, não sabe? – Suspiro fundo
vendo seu sorriso se esticar.
Aquele idiota sabia que eu não faria isso ou
estaria fodido sem ele. Mike era meu melhor amigo desde que éramos crianças e
entrou comigo nesse ramo que chamamos de ilegal
desde cedo.
Estava com a cabeça muito quente para me
estressar com ele agora.
-Calma cara, você esta estressadinho demais. Faz
quanto tempo que você não transa? – Mike ri debochado enquanto eu o fuzilo com
o olhar.
-Que papo é esse de eu não sabia que Martin tinha
planejado o que? Quem é essa garota? – Aponto para a mesma que ainda me
encarava como se estivesse com dor.
Ele fica sem pálida enquanto eu ainda espero a
minha resposta.
-Você não sabia? – Ele engole a seco.
Mas que porra estava acontecendo aqui?
-Não sabia do que caralho? – Grito com raiva.
-Acho melhor seu papai responder por mim. Eu não
quero estar envolvido nisso pra depois você ficar bravo comigo – Bufo sentindo
a minha paciência indo embora.
Eu tinha muita coisa para resolver hoje e não
teria tempo para as besteiras que Mike e Martin criavam.
Quando penso em dizer alguma coisa sou
interrompido por Martin entrando pela porta da sala.
Caramba,
o que era agora?
-Jesse! Dormiu bem? – Martin me cumprimenta com
duas batidinhas nas costas sem tirar aquele sorrisinho sacana do rosto.
Hoje não era o dia em que eu estava com um bom
humor para isso.
-Diga Martin, estou com pressa e tenho que passar
na Blue Velvet para resolver algumas
coisas com Jim hoje. Kurt chega hoje da França com o carregamento e eu tenho
que estar lá para conferir se está tudo certo. Quando chegar aqui eu quero a
minha casa vazia – Respondo autoritário saindo em direção a cozinha, mas sou
barrado pelo mesmo impedindo minha passagem.
-Temos que conversar – Martin me lança um olhar
sério.
Rolo os olhos.
-Hm, fala logo.
-Fala logo é o cacete, vamos até sua sala e lá
conversamos como dois homens civilizados – Ele se vira de costas indo em
direção ao meu escritório.
Bufo estressado e sigo o seu caminho sem mais
delongas. Fecho a porta.
-Diz aí
– Me assento sobre a minha poltrona me servindo com um copo de Whisky.
Martin se senta em uma das outras poltronas na
minha frente e cruza os dedos das mãos umas nas outras e suspira fundo.
Ele parece velho e cansado. Martin estava
adoecendo cada dia mais sem eu poder fazer nada para estabilizar aquele câncer.
Não adiantava insistir em faze-lo descansar um pouco e deixar o serviço de lado
por um momento, ele era teimoso e sempre está ativo me ajudando no que ainda
restava para fazer na empresa. Não queria vê-lo assim, mas sabia que ainda
havia cura e ele estaria fazendo quimioterapia. Martin fumaria desde quando eu
ainda era uma criança, e foi com ele que aprendi a gostar de fumar também, até
essa desgraça foder com todo o seu órgão respiratório.
-Jesse, você sabe que eu estou morrendo, não
sabe? – Sua voz ríspida sai como se estivesse com um ovo na garganta.
Ele suspira fundo me olhando nos olhos com aquele
sentimento ruim se desvairando pelas suas pupilas dilatadas. Travo o maxilar
sentindo aquele sentimento de culpa surgir de dentro de mim.
Eu não sabia o que dizer, apenas continuo em
silêncio esperando que ele risse debochadamente de o que acabou de dizer, como
ele sempre faz. Mas dessa vez, não disse nada. Ele ainda estava ali, com aquela
feição desnivelada pelo cansaço das cirurgias. Sinto como se uma bola de fogo
tivesse atravessado minha garganta lentamente.
-Você não pode – Murmuro quase sem voz – Não
estou pronto para aguentar isso sozinho pai, sabe disso – Engulo a seco.
-Não posso fazer nada em relação a isso. A porra
do câncer está me matando e eu só tenho apenas alguns dias ainda de vida. Vou
deixar tudo sobre o seu comando. Preparei você a vida toda para isso e não é
agora que você vai dar uma de cagão e fugir pra debaixo da saia da mamãe. Já
está se virando sozinho. Olha pra você sentado nessa poltrona, bebendo o meu Whisky
como se fosse um puto de um fodido. Você sabia que algum dia isso aconteceria,
e eu tenho que fazer isso antes de partir – Ele tosse simultaneamente com um
lenço branco entre as mãos que acabara de tirar do bolso.
Eu não queria que ele fosse embora, não agora.
Não sentia que fosse a hora certa de deixar isso fluir.
O meu primeiro cigarro, meu primeiro Whisky,
minha primeira transa, meu primeiro tiro e
agora o nosso primeiro e último adeus. Isso faz eu me sentir mal. Martin
me daria um belo de um murro certeiro na cara caso me visse chorar ou
transmitindo algum sentimento sobre isso. Certamente ele fora me criou para ser
igual a ele, mas acabei me tornando pior.
-O que eu devo fazer? – Suspiro fundo dando um
gole na minha bebida.
-Aquela menina sentada na sala... – Ele coça a
nuca.
-O que tem ela? – Pergunto entediado.
-Seu nome é Faith, e eu quero que você fique com ela – Martin responde sério.
Quase cuspo minha bebida de volta para o copo
depois daquela última frase. Rio divertidamente daquela piada.
Caralho,
aquela foi à frase mais ridícula que já ouvi em toda minha vida. E a pior parte
de toda a história é que ele não estava rindo junto. Sério isso?
-Acha que estou brincando?
-Está brincando – Semicerro os olhos encarando
isso a sério.
Só podia ser brincadeira ou alguma piada que o
velho queria me fazer antes de morrer. O que ele estava pensando? Agora eu sei
por que dona Claire vinha com aquele papo de arrumar uma mulher desde cedo para
mim. Porra, tudo isso fazia parte de um plano que eu não fazia ideia.
-Nem fodendo.
Então era isso que ele estava planejando esse
tempo todo? Me obrigar a casar com uma
pirralha? Sem chances de isso acontecer.
-Cala a boca e escuta cacete! Não muda de assunto
– Martin me fuzila com um olhar sério.
Ajeito minha camisa no meu corpo e bufo.
-Quando eu tinha a sua idade... – Ele começa e eu
resmungo um palavrão vendo aquela conversa voltar de novo. Pensei que ele nunca
mudaria de assunto – Cala a boca e ouça-me pelo menos enquanto eu ainda estiver
vivo. Quando eu morrer não vou mais estar aqui para te encher o saco, então
pelo menos me ouça por alguns minutos – Martin grunhe.
Desvio o meu olhar de aversão para o outro lado
da sala sentindo as minhas veias do pescoço saltarem pela segunda vez naquele
dia.
Estava puto, mas também estava tenso pela morte
próxima do meu pai. Eu nunca mais o veria novamente depois de alguns dias e ele
me apronta uma dessas.
Como vou sair dessa?
Sem cogitação de isso acontecer.
Sem falar que aquela garota não fazia o meu tipo.
Preferia uma mulher mais madura e menos lesada como ela. Uma vadia qualquer se
encaixaria por algum momento, pelo menos me satisfaria quando precisasse.
-Sei muito bem o que está pensando, e sim, você está sendo obrigado a fazer isso.
Como eu estava dizendo, na sua idade quando entramos para a máfia, nós teríamos
que arranjar uma mulher para o cargo de “esposa” para quando você tomasse o
controle não deixasse a desonra e a vergonha na família e ter um herdeiro... —
Ele para por um momento para suspirar e se levanta da sua poltrona. Martin
rodopia o centro da sala em círculos sorrindo como se tivesse lembrado de
alguma coisa – Quando seu avô se foi eu tinha a mesma idade que você, vinte e
quatro anos. Eu estava sozinho e a única esperança que eu via em mim era a sua
mãe, jovem e bonita. Não existia outra igual. O seu avô tinha me dito que ela
seria minha pretendente antes de morrer e que ficaria ali para eu respeitar até
o certo momento. Infelizmente, houve as desavenças e nós nos separamos dois
anos depois de você nascer, e hoje você está aí, passando pela mesma coisa que
eu passei – Martin pausa para me fitar.
Eu ainda estava bravo, com vontade de tacar a
primeira coisa que visse na minha frente em sua direção. Não conseguia ao menos
expressar o quão puto eu estava, então continuei quieto sentindo a sua
aproximação sobre a minha mesa.
Apoio minha mão debaixo do meu queixo com
desgosto. Ainda queria ouvir o que ele tinha a dizer até o fim para não perder
nada.
-Não precisa casar com ela, apenas finja que ela
é sua mulher por algum tempo até você se acostumar com a ideia. Ela tem
dezesseis anos e eu sei o que você deve estar pensando, mas acho melhor assim.
Tudo bem que não era para ser tão jovem assim, mas Jim é burro demais para o
cargo que eu dei para ele. Se eu deixasse você para escolher sua futura esposa
eu estaria fodido. Não vejo você com uma mulher decente desde que Sienna e você
se separaram e... – Interrompo sua fala.
Lá vem
ele com aquele papo de novo. Acho que Martin estava passando tempo demais com
Claire.
-Sienna não era descente, era só mais uma vadia
disfarçada, e foi a única namorada que tive a minha vida inteira. Você fala
como se tivéssemos nos casado, eu nunca cometeria esse erro – Rio daquela besteira
toda.
Até que Sienna era uma boa garota, e uma das
mulheres mais gostosas que já fiquei, mas não consigo ficar preso a uma mulher
por muito tempo. Não me julgue, mas me sinto entediado. Ainda me lembro de
quando terminamos e ela ficou puta comigo. Foi cômico.
-Se é assim que você acha... – Ele ri sem vida –
Você vive por aí nessas festas e rachas sem se preocupar em quantas já dormiu
em uma noite que não parou para pensar que esse dia chegaria. Faith é uma
menina doce, perfeita para o cargo de nora. Claire vai adorá-la – Martin sorri
empolgado.
Eu sabia que tinha a participação da minha mãe
nessa história, não podia mesmo faltar.
Eu não queria desrespeitar o velho, mas me casar
em plenos vinte quatro anos estava fora de cogitação. Não conseguia me focar
nisso agora, tinha que ter um tempo de descanso para pensar em tudo isso.
-Dona Claire sabe de onde você tirou essa garota?
– Ergo as sobrancelhas debochado.
Com certeza tinha que ter o Jim no meio de tudo
aquilo também. A minha mãe o odiava, e confesso que eu também não ia com a cara
do italiano.
-Claire não deve saber de nada sobre isso. Você
vai ficar na sua e fazer o que eu mandei, pronto acabou porra – Ele tosse mais
uma vez tirando o lenço do bolso.
Era como se sua garganta estivesse sendo possuída
por algo maligno, no qual estava o matando a cada tossida. Martin podia parecer
um homem normal de primeira vista, mas sabia que o velho voltaria até dos
infernos para me caçar caso não fizesse o que ele mandasse.
Não acredito que terei que fazer isso. Estou
fodido mesmo.
-E o que eu vou fazer com essa garota? Comprar
brinquedos pra ela se distrair enquanto eu estiver fora? Isso só pode ser
brincadeira – Rio pelo nariz afagando os meus cabelos bagunçados.
Eu estava tendo que concordar com aquilo, parecia
até surreal.
-Larga de ser ignorante. Na idade dela você já
era um demônio, então pega leve com a menina. Eu não sei de muita informação
sobre ela então trate de descobrir você mesmo. Quero ter certeza de que não
será um vagabundo enquanto estiver aqui. Ela nem é tão nova assim, fará
dezessete dentro de alguns meses – Rio mais uma vez apoiando a mão no rosto.
Isso era uma piada mesmo.
-Nem é tão nova assim, apenas quase oito anos
mais nova do que eu – Ergo as sobrancelhas.
-Sua mãe é onze anos mais nova que eu, e
sinceramente, acho melhor assim – Ele diz com convicção.
Então o velho entendia do assunto.
-Eu tenho que ir. Tenho algumas consultas naquela
merda de hospital – Martin resmunga.
-Você não deveria estar internado? – Pergunto com
um olhar desconfiado.
-Uma ova. Vou morrer daqui alguns dias mesmo, pra
que ficar internado? Quero morrer longe daquela droga – Martin tosse mais uma
vez com o seu lenço na boca.
Aquele estresse todo só me fez pensar na minha família
e em Martin indo embora. Quem saberia disso antes de mim? Já conseguia prever
sua doença se alastrando pelo seu olhar. Mas quem tomará o cargo de responsável
da família seria eu? Tudo bem que eu já saberia disso faz tempo, mas só agora
me cai a ficha.
Serei o novo manda chuva de Miami, e pensar em
como isso faz eu me sentir importante era fodidamente prazeroso. Ser um dos
maiores gângsteres dos Estados Unidos não era tão fácil assim, mas me renderia
boas mulheres em minha cama mais tarde. Por onde eu passava era reconhecido por
todos, isso me fazia delirar pela adrenalina. Não podia perder o foco agora. Eu
não perderia essa chance de honrar o meu nome.
Ainda mais com aquela garota que seria um
empecilho na minha cola.
É tanta coisa para raciocinar que mal tive tempo
para me divertir um pouco. Talvez hoje seja um dia perfeito pra pensar nisso.
-Não se esqueça, Jesse. Faça isso por mim, pela
sua mãe e pela sua família – Martin murmura com altivez.
Molho os lábios sentindo meus ombros se encostarem
sobre o estofado da poltrona até direcionar meus pensamentos sobre a tal
garota.
Eu estava tenso com aquilo tudo. Mal tinha
acabado de receber um monte de responsabilidades de uma vez só e já estava com
outra nos meus ombros. Tentaria o meu máximo para não me preocupar com isso. Eu
tinha que cuidar da minha mãe e do sobrenome da família, não teria tempo para
levar ninguém para creche. Acho que isso era o que mais contava agora.
-Eu o farei pela família, mas não vou me casar
com ninguém senhor Jackson... – Sorrio de canto dos lábios.
Ouço o som do seu riso debochado se alastrar
sobre a sala. Martin me entendia muito bem. Não é a toa que hoje sou seu clone.
-Vai fundo – Essas foram as suas últimas palavras
antes de deixar a sala.
Martin,
Martin, Martin.
Quem seria ele se não me deixasse ferrasse antes
de morrer? Poderia estar velho, mas ainda era inteligente. Não nasci para
casar, muito menos ter filhos. Cuidar de crianças e pertencer a uma mulher só
estava fora de cogitação agora. Eu não desonraria meu pai, mais também não
farei exatamente como ele pensa que farei.
Não era minha praia brincar de marido e mulher.


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