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CAPÍTULO 06





Oie amores <3
Eu sei que eu estive longe por um tempo mas é que eu desanimei de postar os capítulos. Primeiramente "Entrega-me" era "postado" na Amazon disponível para quem quisesse comprar por 2 reais, porém com o passar do tempo eu comecei a encarar a história com outros olhares e hoje eu tenho uma visão diferente da que eu tinha alguns anos atrás quando comecei a escrever. Eu removi a história da Amazon e não tenho intenção de coloca-la de volta. Eu penso em escerever outros livros no qual eu estou bem animada pra começar a escrever :D 
Eu vou continuar postando "Entrega-me" aqui mas não sei por quanto tempo :/ 
Peço compreensão de vocês e espero sempre ouvir seu feedback sobre as minhas histórias. Eu acredito que o que te faz um escritor/a não é apenas o fato de escrever e ter livros publicados, mas também o público que te acompanha <3


FAITH


   ACORDO SUADA. Sobressalto pela cama como quem acabara de acordar de repente. Molho os lábios antes de pisar os pés do chão e me espreguiço com as mãos esticadas em direção ao teto.
   Eu tinha dormido pelo resto do dia. Pude notar pela cor mais escura do céu que eu vi pela janela. Se não me engano, devia ser umas sete horas da noite. Eu estava preocupada com Bryan e sentia a necessidade de ligar para ele. Ainda bem que ainda tinha o número dele de cabeça. 
   Desço as escadas com os pés descalços sentindo o impacto da minha pele quente com o chão gélido da sala. Não tinha ninguém ali, mas não sabia se podia usar o telefone e também não sabia onde ficava.
    Quando penso em ir subir novamente para procurar o aparelho eu sou interrompida brutalmente pelo impacto do meu corpo batendo contra um peitoral no meio do caminho. Olho para cima corada sentindo o olhar fuzilante de Jesse me cortar ao meio.
    Ele estava cheiroso. Um perfume de marca cara, eu presumo. Vestido com uma jaqueta de couro preta junto a uma regata branca por baixo e uma calça jeans de ganga clara estilo badboy. Ele estava lindo. O seu cabelo sempre meio bagunçado e com algumas madeixas rebeldes caindo pela testa. Aquele seu olhar intimidador que me deixava sem jeito.
    Eu estava fazendo aquilo de novo, encarando seus olhos feito uma idiota. 
   Mas dessa vez não desvio, não conseguia. Era tão mágico aquele seu efeito sobre mim que eu não conseguia me desvencilhar de suas íris. Jesse trava o maxilar sem tirar os olhos de mim. Ele parecia curioso, mas depois mudou seu semblante para tédio.
 -Vai ficar aí me encarando ou vai sair da minha frente? – Ele ergue as sobrancelhas. 
   Coloco uma mecha atrás da orelha tentando disfarçar meu olhar sem graça.
 -Posso usar o telefone? – Pergunto o fazendo semicerrar os olhos. Jesse me encara como se fosse uma idiota. 
   Ele cruza os braços e molha a ponta da língua nos seus beiços rosados antes de prosseguir. Não pude deixar de notar como aquilo me fez me sentir quente.
   O que é isso, Faith?
 -Claro, por que não liga para as suas amigas e faz uma festa do pijama também? – Ele sorri com ironia.
   Aquele deboche dele me deixava com raiva, mas eu era obrigada a me segurar para não dizer o que não devia.
 -Desculpa, mas eu só quero ligar para um amigo... – Tento dizer. Ele revira os olhos como se tivesse lidando com uma criança. 
   O que tecnicamente, era como se eu fosse.
 -Não querida, você não pode ligar para seu amigo, entendeu? Caso contrário, você não vai gostar do que eu vou fazer com você se souber que tentou fugir, ok? – Ele balbucia suas palavras com a cabeça erguida. 
  Eu estava me sentindo uma idiota com ele me tratando assim e não me contive em responder:
 -Não vou fugir, não sou uma criança – Cruzo os braços chamando a sua atenção antes dele virar as costas. 
   Jesse para no meio do caminho fechando o punho e se vira para me olhar no fundo dos olhos.
 -Porra, você não vai ligar pra ninguém! Vê se não me enche e vai brincar de boneca, fedelha – Ele responde grosso. 
   Isso me fez sentir uma raiva brotar de dentro de mim.
   Antes de eu me pronunciar Mike chega à sala lançando um olhar fuzilante para Jesse fazendo o mesmo revirar os olhos — mais uma vez.
 -Cala a boca Jesse! Deixa a garota. Parece até que você nunca teve dezesseis anos – Mike retruca.
 -Foda-se, eu tenho mais o que fazer, com mulheres de verdade me esperando para serem fodidas. Se você quiser pode ficar aqui com ela brincando de casinha – Ele ri debochado saindo pela porta de entrada.
   Eu não acreditava no que ele tinha acabado de dizer. Estava perplexa e com a mandíbula aberta. Ele dormiria com outras estando acompanhado comigo? Pelo que eu entendi éramos para fingir que estávamos juntos. Me sentia incomodada com o fato de ele ficar com outras naquela situação. 
 -Ele é um idiota assim mesmo, não liga – Mike me consola chegando mais próximo a mim. 
   Até que ele era uma boa pessoa diferente de outros naquela casa. Muitos outros. Não sabia o porquê de ele ser tão gentil comigo, talvez eu não devesse cair nessa cilada como cai com Jim, apesar de Mike não parecer querer me machucar.
 -Eu vou para meu quarto – Sussurro cabisbaixa. 
 -Espera, você vai mesmo ficar enfurnada aqui em pleno domingo sem fazer nada nessa casa? Vamos com a gente – Mike sorri. 
  Agora era eu quem estava achando que aquilo fosse uma brincadeira.
 -Eu sou a escrava, não posso ficar rondando por aí. Posso fugir – Rio sem vida.
 -Não liga pra isso, sei que não vai fugir. Caso ao contrário estaria ferrada na mão de Jesse. Eu não me perdoaria se te deixasse sozinha nessa casa enorme se ter o que fazer. Vamos a uma racha que vai ter daqui a pouco. Vem com a gente – Mike sorri com animação. 
   Não seria tão má uma ideia assim. Seria bem melhor do que ficar trancada no quarto chorando a noite toda. 
  Ainda estava confusa e com medo.
 -Não sei se tenho essa liberdade... – Fito o chão timidamente. 
 -Quem disse que não tem? A partir de agora ninguém mais vai te machucar. Jim não está mais aqui, Martin também não. Apenas fique do meu lado e não suma de vista, ok? – Ele sorri. 
   Sem pensar duas vezes eu corro em sua direção e o abraço. Isso me distrairia um pouco.
 -Obrigado, vou me trocar – Mike ri com a minha euforia quando quase levo um tombo da escada. 
   Troco de roupa rapidamente colocando o resto de vestimenta que ainda me restava na mochila. Lavo meu rosto, passo meu pó e calço os meus tênis antes de descer. Eu tinha deixado um vidrinho de perfume na minha bolsa que teria comprado quando cheguei em Miami para entrevista de emprego. Utilizo o mesmo borrifando algumas vezes pelo meu pescoço. 
   Dessa vez usaria uma blusa um pouco mais curta do que as outras que tinha. Mostrava um pouco do meu umbigo, mas tamparia com o meu moletom de zíper da cor cinza. Não era muito de sair de casa, aliás, nunca tive o privilegio de alguém me convidar para sair para algum lugar. Estava desastrada e feliz.
   Encontro Mike no sofá mexendo no seu celular quando desço as escadas.
 -Estou pronta – Sorrio.
 -Então vamos logo antes que Jesse me mate – Ele se levanta rápido e pega no meu braço me guiando para fora de casa. 
   Entramos na sua Range Rover de cor escura estacionada em frente à mansão e damos partida para o local.
   Eu nunca tinha ido a uma racha, mal saberia o que era isso direito, mas esperaria que não fosse uma coisa fútil. Mike puxa papo comigo o caminho todo e perco as contas de quantas risadas ele arranca de mim. Pelo menos agora eu tinha uma companhia para conversar um pouco quando estivesse dando mais um dos meus ataques de desespero. Pensaria em como daria um jeito de ligar para Bryan depois¬. Ele ficaria muito bravo comigo.
 -É aqui – Mike estaciona em uma rua bem movimentada perto de outros carros ali. 
   Estava bem cheio, com muitas pessoas encostadas nos carros e um som alto. Tinha bebidas e gente se beijando nos pelos cantos. Parecia uma festa no meio da rua no qual eu achei bem estranho.
 -Vem comigo — Mike tem que falar alto para que eu possa escutar.
   Ele me leva pelo braço até um grupo de alguns homens. Os mesmos conversavam ao lado de carros esportivos que pareciam custar minha vida. Não que ela valesse muito, mas um arranhãozinho naquela máquina já era o suficiente para trabalhar durante anos para conseguir pagar o preço. 
 -Fala Mike – Um homem alto e moreno cumprimenta o mesmo com um toque de mãos. 
   Fico avermelhada com tantos olhares sobre mim.
 -Ual cara, tá pegando as novinhas agora? Filho da mãe! – Um moreno de boné preto virado para trás ri alto me fitando com malícia. 
   Eu estava totalmente corada e com vontade de me enfiar em qualquer buraco. Devem estar pensando em o que uma pirralha fazia ali. Talvez não tivesse sido tão boa ideia ter vindo.
 -Cala a boca, ela não é o que você está pensando. – Mike o repreende fazendo o mesmo se calar. 
   Todos eles olhavam para mim como se tivessem se divertindo com o que viam. Aquilo estava de começando a me desconfortar.
   Eu nunca tinha ido para um lugar desses, e nunca tinha me entrosado com pessoas dessa idade. Na verdade eu me sentia uma nova Faith, só que mais tímida. Não sabia se gostava disso.
 -O que ela está fazendo aqui? – Ouço a voz rouca e grossa de Jesse ecoar sobre meus ouvidos.
   Desvio meu olhar para Jesse e ele olha para mim com uma cara de como diz que “eu vou te matar” fazendo eu me encolher no meio dos meus ombros. Ele era um homem lindo, mas isso não me impedia de sentir medo.
 -Relaxa cara, você não é o único que pode ser divertir – Mike dá duas batidinhas do peitoral de Jesse.
   O mesmo fecha suas pupilas por alguns segundos e depois as abre com um olhar matador. Seria hoje que eu morreria.
   Eles cochicham algumas palavras um pouco à distância de mim deixando-me sozinha com aqueles garotos que mal conhecia. Pude ver de longe que Jesse estava sem paciência quase estrangulando Mike, o que me deu vontade de gritar com aquele infeliz. Mas quem ele pensava que era? Tão grosso e mandão Jesse achava que podia mandar em quem ele quisesse. Em mim ele até poderia mandar, mas Mike não tinha nada a ver com isso.
   Ando em passos largos batendo o pé no chão até chegar em Jesse e interromper sua conversa. Ele me fita com um olhar sério e foi a minha vez de o fuzilar.
 -Mike não tem nada a ver com isso, eu quis sair com ele. Por que não nos deixa em paz? – Trinco os meus dentes com raiva. 
   Jesse cruza os braços com um sorriso debochado nos lábios como se estivesse em um circo no qual eu era a atração principal. Me perco nos meus pensamentos quando ele me olha com aquele sarcasmo todo. Quase me desconcentro, mas rapidamente volto à minha postura. 
-Que gracinha, Mike tem até uma mascote agora – Ele diz rindo. 
 -Não acho que você tem o direito de me tratar assim – Respondo um pouco chateada.
 -Eu tenho o direito de fazer tudo o que eu quiser anjo, e se você não sair da minha frente agora o único direito que você vai ter é de levar um tiro. – Jesse me empurra com seu ombro e sai de vista como se tivesse acabado de conversar com uma criança. 
   Aquela mania dele de me tachar de criança estava me dando nos nervos, mas não duvidaria que ele me matasse se fosse preciso.
 -Relaxa, ele é assim mesmo. Depois de um tempo você se acostuma – Mike da de ombros, e sorri. 
   Consigo ver Jesse de longe ao lado de alguns homens que pareciam ser seus amigos. Eles se divertiam como se não se importassem com nada. Reparei que muitas garotas o rodeavam, rindo de alguma coisa que Jesse dissera. Eram bonitas e pareciam ser íntimas dele. Aquilo faz eu me sentir decepcionada e envergonhada. 
   O que as pessoas pensariam de mim? 
 -A racha vai começar. Vem comigo e não desgruda de mim – Mike interrompe meus pensamentos. 
  Acompanho seus passos até a pista e me encaixo na calçada onde às pessoas circulavam. Pelo pouco que eu sabia pouco sobre carros pude identificar uma Lamborghini e um Camaro. Jesse surge no meio da pista atraindo todos os olhares maliciosos de todas as pessoas do sexo feminino. Até mesmo de garotinhas como eu. Não tinha uma faixa etária exata da idade das garotas, mas algumas pareciam ser mais velhas que outras. É claro, não tinha visto ninguém que parecesse da minha idade ali, o que fez eu me sentir intimidada. 
 -Vai começar! – Uma mulher seminua grita animada no meio da pista. 
  Ela era uma daquelas moças que davam a largada para os carros começarem a correr. Nisso eu não pude deixar de notar Jesse entrando na Lamborghini laranja junto com uma loira alta. Pelo que eu pude notar até agora ele era muito badalado entre as mulheres, obviamente. 
   Eu não me sentia bem ali.
 -Um, dois... – A moça começa a contar. 
   Sentia o pneu do carro ranger contra o asfalto com a pressão que Jesse exercia sobre o volante. Não tinha notado quem estaria no outro carro, mas não o conhecia de qualquer forma. Queria ir embora, mas Mike me mataria se o fizesse ir agora.
 -TRÊS! – Ela grita. 
   Os dois carros saem em disparada e a multidão grita. Mike estava do meu lado cronometrando os minutos com o celular enquanto eu fico de braços encolhidos esperando aquilo acabar. 
   Já se fazia dez minutos que os carros tinham acabado de partir e agora só se podiam escutar pneus de longe se aproximando. Jesse foi o primeiro a chegar e a multidão grita mais uma vez. Logo após cinco segundos o Camaro chega.
 -Isso aí Jackson! – Os mesmos garotos que tinham cumprimentado Mike no início aplaudem Jesse quando ele sai do carro. 
   Jesse estava com seu sorrisinho de soberania nos lábios enquanto recebia elogios de todos que lhe davam parabéns pela sua vitória. Até mesmo a loira que antes estava dentro do seu carro. Ele a puxa para um beijo e crava seus dedos em sua bunda redundantemente perfeita.
   Eu não aguentaria mais nenhum segundo ali tendo que encarar aquele sorriso depravado de Jesse. Não estava contente, muito menos me divertindo. Talvez tivesse sido melhor se eu tivesse ficado trancada em casa esperando até o momento de eu poder ser livre.
 -Você foi demais cara. Dez minutos e cinco segundos no total! – Mike faz um toque com as mãos de Jesse.
 -Você sabe que eu sou o melhor, Mike – Ele pisca se gabando. 
   O mesmo desmancha o sorriso quando me fita mudando seu semblante para tédio.
 -Leva essa garota pra casa, vamos nos divertir. Estou precisando disso – Ele diz, me dando vontade dizer algumas poucas verdades. 
   Mas não o faço, não seria louca.
 -Hoje é o seu dia, vou ficar de olho nela essa noite, só para garantir – Mike sorri para mim e eu sorrio de volta. 
   Jesse rola os olhos.
 -Então tá, vai lá dar de mama para a criança. Eu vou com os caras na Central Club e não tenho previsão de que horas vou voltar – Ele responde sorrindo ainda com loira do seu lado.
   Jesse finalmente some de vista me deixando a sós com Mike. Dei graças a Deus em vê-lo longe.
 -Vamos. Está com fome? – Mike pergunta.
 -Não precisa desperdiçar o seu tempo com uma criança, pode ir. Eu vou ficar bem – Sorrio sem vida mais uma vez. 
   Eu não iria mesmo, mas não queria que Mike ficasse em casa entediado só por minha causa. Ele tinha sido tão bom comigo desde que cheguei aqui e não quero ser um estorvo para o mesmo.
-Eu não estou indo com você só para ver se não vai fugir – Mike ri – A mansão de Jesse é cheia de seguranças pela noite e às vezes pelo dia. Eu estou cansado. Amanhã será um dia corrido e eu preciso comer, e você também. Não vejo nada de errado nisso – Ele dá de ombros. 
   Molho os meus lábios secos pensando no que Mike acabara de dizer. 
   Não teria notado os seguranças, mas notei nas diversas câmeras pela mansão. Já era esperado que uma casa como aquela tivesse tal segurança, mas fico assustada ao saber que não estava sozinha.
 -Acho melhor nós irmos – Sorrio para ele. 
   Caminhamos até a sua Range Rover em silêncio colocando o cinto e dando partida para irmos embora. Não estávamos a caminho de casa, pois Mike me levaria em alguma lanchonete para comer, apesar de insistir várias vezes que não tinha necessidade para isso. Me sentia envergonhada com ele tendo que pagar coisas para mim. Não queria ser folgada, mas, de qualquer forma, também não tinha dinheiro.
   Acabo deixando Mike me comprar sanduíche de frango com salada enquanto ele pede um hambúrguer. Mike estava sendo muito amigável comigo, tanto que fez eu me distrair um pouco. Talvez este fosse o começo de uma nova amizade. Ele me trata muito bem, mas disso não sabia o porquê. Acho que ele sente pena de mim, ou apenas queria me distrair mesmo. Pela minha felicidade ele tinha conseguido.
   Acabamos de comer e voltamos para casa. Estava sendo uma noite agradável, apesar de Jesse ter tentado estragá-la. 
 -É melhor você ir dormir – Mike diz entre as risadas. 
   Tínhamos acabado de conversar sobre coisas aleatórias e Mike sempre me fazia rir. Passar o tempo com ele não seria tão ruim assim.
 -Não estou com muito sono, mas vou tentar. Não precisa me colocar para dormir, ok? – Cruzo os braços fingindo estar ofendida. Mike arregala os olhos.
 -Não, não é isso que eu quis dizer, eu... – Ele se embola todo e eu rio do seu desespero.
 -Relaxa, só estou brincando – coloco a mão na boca disfarçando a minha risada.
   Mike me empurra de leve e acaba rindo junto.
   Volto ao meu normal ficando em silêncio, apenas observando a televisão. Estávamos na sala assistindo a um filme qualquer quando me vem o tédio.
 -Por que está sendo legal comigo? – Pergunto entre o silêncio. 
   Mike me fita sorrindo suavemente como se não entendesse a minha pergunta. 
 -Estou apenas sendo gentil – Ele dá de ombros. - Por que a pergunta? 
 -Nada, só queria saber... – Me ajeito no sofá abrangendo a sua resposta.
   Suspiro fundo pensando em mil coisas ao mesmo tempo. Solto uma risadinha sem graça em torno de tudo isso. Estava tudo tão confuso para mim.
 -Quantos anos você tem, Mike? – Pergunto curiosa. 
   Não queria parecer ser intrometida, mas eu ainda não sabia de nada sobre o mesmo.
 -Vou fazer vinte e quatro – Ele sorri.
 -Ah... – Respondo meio sem graça. 
   Trocamos algumas palavras pelo resto da noite até eu me sentir exausta. 
  Faço como ele e me levanto do sofá. Despeço-me do mesmo com um beijo na bochecha antes de ir para a cama. Não conseguiria dormir, mas, mesmo assim, me cobri com o edredom.
   Várias coisas rondavam minha cabeça, várias dúvidas que ainda não tinham suas respostas. Estava tudo tão confuso, tantas coisas acontecendo de uma vez só que não tive tempo para pensar. 
   Como Jesse poderia ser tão arrogante e grosso? Como eu poderia ter sido escolhida para fazer o papel de sua acompanhante, namorada ou sei lá o que? Como eu consegui chegar até aqui? Eu me pergunto como Jonny e Bryan devem estar agora. Bill deve estar a mil por hora cuidando daquela lanchonete sozinho. Está seria minha nova jornada? Estava enlouquecendo. 
   Pelo menos eu tinha Mike do meu lado para não me deixar cometer tal ato de pular daquela janela.
   Já deviam ser duas horas da manhã e eu ainda não conseguia dormir de jeito nenhum. Minha garganta estava seca, me fazendo sentir uma agonia. Eu não irei conseguir dormir sem tomar pelo menos um copo d´água.
   Desço as escadas silenciosamente sem fazer barulho. Eu ando em direção à cozinha tomando cuidado para não rolar daquela escada por causa da escuridão, onde apenas um miserável raio de luz vindo das janelas iluminava a casa. Eu tinha medo da escuridão.
   Eu não tinha tamanha intimidade com ninguém aqui, mas não conseguiria ficar muito tempo com a garganta seca.
   Chego até a cozinha rapidamente distraída com os meus passos quando levo um tremendo de um susto ao me deparar com Jesse sem camisa vestido apenas por uma calça de moletom em frente à geladeira. Ponho a mão sobre o peito tentando normalizar a minha respiração me segurando na bancada da cozinha para não cair. Estava tão assustada que não parei para visualizá-lo direito enquanto o mesmo ria da minha cara de tacho que fizera. 
 -Você quase me matou! – Inspiro mais uma vez abrindo os olhos novamente, mas logo me arrependo. 
   Eu nunca tinha visto um homem tão quente em toda a minha vida, especialmente com aquele abdômen perfeitamente esculpido com seis pacotes.
   Senhor.
   O seu peitoral sarado era coberto por algumas tatuagens que não pude identificar muito bem por causa do escuro, mas pude notar duas cobras se cruzando no meio. Reparo que seu abdômen continha uma frase não muito grande tatuada do lado direito, e que seu braço esquerdo era todo tatuado também. O direito continha algumas, mas não tanto quando a esquerda. 
   Jesse era um homem muito quente. 
   Nada poderia ser mais sexy do que aquela curvinha da sua cintura abaixo do umbigo, que ia em direção ao... céus.
   Os meus olhos brilham com o seu corpo magnífico.
 -Curtindo a vista? – Jesse me tira dos meus pensamentos com aquela sua voz rouca. 
   Estava mais rouca do que na racha. Isso me faz concluir que a festa que ele tinha ido teria sido muito divertida a ponto de fazê-lo perder a voz. Não tinha prestado atenção na pergunta que ele tinha acabado de me fazer, estava distraída demais para notar que estava fazendo aquela cara idiota de novo.
 -Vim pegar um copo d´água – Murmuro baixo. 
   Estava totalmente sem graça com aquela sua barriga nua e com seus músculos me chamando pelo nome para serem tocados. Pior hora para eu resolver descer para beber alguma coisa. Devia ter tomado água da pia do banheiro, não ligaria em usar as mãos.
 -Sei bem – Jesse ri bebericando sua latinha de cerveja que acabou de pegar da geladeira. 
   Tento me concentrar no motivo por eu ter ido ali e desvio o meu olhar para os armários que ficavam bem em cima da pia. Era alto demais para o meu tamanho, mas tento me apoiar com a ponta dos pés no chão e apenas me concentro em pelo menos abrir a porta de vidro, mas estava difícil. 
   Ouço as risadas de gozação de Jesse me deixando vergonhada. Era pequena demais para alcançar ao contrário daquelas mulheres lindas e altas que eu via na televisão. A minha única vantagem era quando eu e Bryan brincávamos de esconde-esconde. Eu sempre cabia nos menores lugares.
   Quando me viro para pegar uma cadeira bato de frente contra o peito de Jesse sentindo aquele aroma do seu perfume invadir as minhas narinas. Jesse abre a porta do armário para mim pegando um copo e pondo na minha frente ainda com aquele sorriso de gozação nos lábios.
 -Difícil né? – Jesse encosta sua lombar na bancada enquanto bebe da sua cerveja.
   Reviro os olhos pegando meu copo das suas mãos e enchendo com a água gelada que pego da geladeira. Eu não olhava para ele, mas poderia sentir suas íris queimarem o meu corpo de trás de mim, o que me fez ruborizar no mesmo instante. 
   Estava apenas vestida com o meu short de algodão e uma das cinco regatas que tinha levado comigo na mochila, mas já me sentia seminua. Não que eu achasse que eu tinha um corpo deslumbrante, mas não gostava muito de usar roupas curtas na presença do sexo oposto. Não tinha trago muitas roupas e teria que lavar o resto que sobrara mais tarde, senão daqui a pouco eu não teria nenhuma roupa para usar.
-Sabe beata... – viro-me rapidamente ao sentir a respiração de Jesse bater contra os pelos do meu pescoço e quase me deixando inconsciente pela aproximação dos nossos corpos – Quando meu pai me falou sobre você a primeira coisa em que eu pensei foi: puta que pariu, até parece que eu vou fazer da minha casa uma creche. Tô fodido. Mas agora vendo você assim... – Ele diz fungando meu pescoço e inalando meu cheiro pausadamente me deixando de pernas bambas. 
   O frescor do seu hálito batendo contra toda extensão do meu ombro me fez ir para o céu por alguns segundos, fazendo-me fechar os olhos e sentir um prazer indecifrável.
   Sinto uma sensação que jamais senti antes.
 -Até que não vai ser tão ruim ter você aqui rebolando essa bundinha linda pela minha casa – Ele balbucia suas últimas palavras antes de subir as escadas com um sorriso malicioso nos lábios. 
   Me deixando ali. 
   Sozinha, suada e totalmente sobreposta em cima da bancada sem conseguir mover minhas pernas.
   Nunca, jamais fiquei tão perto de um homem e de ninguém assim. Sentia a sensação de estar nas nuvens por alguns minutos e de calor entre as minhas pernas. 
   Mas o que eu estava sentindo? 
   Bebo o último gole de água que restava no copo antes que a minha garganta secasse totalmente enquanto ainda pensava naquilo. Não podia deixar nada disso acontecer. Jesse tinha poderes e eu devia me esquivar. Mas, caramba! Não conseguia nem pensar direito de tão atordoada que estava. 
   Deixo o copo em cima da pia subindo apressadamente para o meu quarto e me trancando lá.
   Me escondo debaixo do edredom e fito o teto assustada. Sentia a minha respiração descompensada como se tivesse acabado de correr uma maratona, mas me recomponho depois de alguns minutos. Balanço a minha cabeça expulsando meus pensamentos sobre Jesse e tento me concentrar apenas em dormir.
   Me viro e reviro por todos os lados da cama até me encaixar em uma posição agradável. Depois de uma hora sinto o sono chegar, finalmente.

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CAPÍTULO 05



FAITH

   JÁ TINHAM SE passado horas que eu estava sentada naquele sofá e ninguém me diz nada. Tudo bem, não era tanto tempo assim, mas já estava sentindo meu bumbum ficar dormente de tanto esperar ao lado daquele homem estranho.
   Eu não tinha a menor ideia de como vim parar aqui. Apenas acordei com uma dor de cabeça forte em um quarto estranho. Pelo menos eu já tinha tirado aquelas roupas curtas e agora estava um pouco mais confortável com as minhas de agora. A minha mochila tinha voltado para mim sem o meu celular e eu não pude protestar contra isso ou temeria levar outro tapa. Estava pensando em como eu falaria com Bryan novamente.
 -Está com fome? – O moço sentado ao meu lado perguntou gentilmente.
   Ele parecia ter uns vinte e quatro anos e era muito bonito, mas não tanto quanto seu amigo de mais cedo. Mas o que estava pensando? Não poderia pensar nessas coisas com os homens que acabaram por me sequestrarem, e sabe lá o que farão comigo depois.
   Ainda tinha medo, ainda mais daquele tal Martin.
 -Um pouco – Respondo com a voz baixa.
  Os seus olhos de cor azul bebê reluziam com seu sorriso gentil escancarado no seu rosto nevado. Os seus cabelos aloirados penteados em um pequeno topetinho na lateral da sua testa me faz pensar que era um homem vaidoso. Se não me engano, seu nome era Mike, e ele não parecia ser uma pessoa má, mas ainda sim não confiava.
 -Não vou te machucar, ok? Vou mandar a Carmem preparar alguma coisa para você e depois ela te mostra o quarto que você vai ficar – Ele se levanta para ir à cozinha, mas eu o interrompo.
 -O que vocês vão fazer comigo? – Questiono fitando meus dedos.
   Essa pergunta ainda perambulava pela minha cabeça desde que Alec me trouxe até aqui.
 -Olha, você não vai poder mais ter a sua vida de volta, ok? Jim te vendeu para pertencer ao Jesse, e agora você é digamos... a acompanhante dele. Você é dele agora. Não tem mais volta – Mike explica com tanta calma que me sinto confusa.
   Eu já fui vendida? Quem é Jesse? Como assim serei sua acompanhante? Pelo que eu me lembro ele era o homem de olhos brilhantes que discutia com ele mais cedo.
   Ele era muito para mim, sem chances. Até parece que um homem como ele que provavelmente pode ter todas em seus pés iria me querer como acompanhante dele.
   Ainda me lembro do quão nervoso ele estava. As suas veias saltando pelo seu pescoço, sua voz rouca e exasperada. Seu punho travado pela raiva o fazia parecer um homem bravo. O seu olhar fuzilante sobre mim me fazia tremer da cabeça aos pés, e só de pensar nele meus ombros se encolhem. Ele é com certeza intimidador.
 -Mike, certifique-se de ajudar o Jesse com Kurt hoje à tarde, ele vai precisar de você com ele no carregamento – Paro de pensar assim que ouço a voz ríspida de Martin atravessado à sala.
   Engulo minha saliva sentindo sede por não ter bebido ou comido nada desde ontem de tarde. Estava morrendo de fome.
 -Eu vou Martin, pode deixar – Mike rola os olhos indo em direção à cozinha me deixando a sós com aquele homem que eu tanto temia.
   Molho os lábios mais uma vez sendo obrigada a sentir o gosto amargo dos meus beiços.
   Martin me fitava com um sorriso no rosto como se tivesse pensando em alguma ideia boa. Estava me sentindo totalmente assustada com aquele seu olhar estranho pairando sobre mim e mal via a hora de Mike chegar logo.
   Até que seus olhares são desviados para a porta da sala de onde ele saiu.
-Ainda está aqui? – O homem dos olhos brilhantes rola as suas íris para o mesmo.
   Martin murmura algum palavrão saindo de vista pela porta de entrada deixando apenas eu e o tal Jesse a sós com aquele olhar debochado que ele dera para mim.
   Isso de alguma forma fez eu me sentir mal, mas não pude deixar de notar o quão lindo era.
   Alto, ombros largos, pele alva e macia como as nuvens. Lábios finos e aveludados de uma tonalidade rosada e olhos cor âmbar mais brilhantes que o sol. Os seus cabelos macios no tom louro escuro bagunçado despreocupadamente o deixavam com um ar mais sexy. Ainda mais com as suas tatuagens que dariam para enxergar por fora da gola “V” da camisa.
   Céus, ele era lindo. Eu estava tão hipnotizada pelas suas íris encantadoras que não tive a decência de me recompor e notar que estava perecendo uma idiota fitando o pouquinho de tatuagem se sobressaindo de seu peito. Ruborizo minhas bochechas virando o rosto para a parede oposta desviando o meu olhar. Ele parece notar a minha mudança repentina e ri pelo nariz.
   Isso me fez corar mais ainda.
-Caramba, eu nunca vi uma garota corar tanto como você – Me viro para olhar em seus olhos de novo vendo que me analisava de cabeça aos pés com um semblante curioso.
   Acho que ele deveria estar pensando em como eu poderia me vestir tão mal assim, mas essa era a única roupa que tinha me sobrado da minha mochila.
 -Qual é seu nome mesmo? – Ele pergunta com a voz rouca me eletrizando por inteira.
   Estava envergonhada apenas por tê-lo ao meu lado.
 -Faith – Respondo baixinho.
 -Faith... – Ele repete meu nome me fitando com cautela – Acho que sabe por que está aqui, e antes de qualquer coisa saiba que não vamos ter nada. Você finge que somos um casalzinho bonitinho até isso tudo acabar e eu te deixo livre, ok? Não vai durar muito – Ele sorri cinicamente de canto a canto dos lábios botando suas mãos dentro dos bolsos da calça jeans.
   Fito o chão me sentindo ruborizada novamente, tentando não pensar no assunto.
   O lado bom disso era que eu poderia ser livre depois.
 -Tudo bem... – Sussurro em uma voz quase inaudível.
 -A propósito, meu nome é Jesse, Jesse Jackson. Vai ouvir muito esse nome, até por que eu tenho muitos contatos. Sabe o isso quer dizer? Que se caso você tentar fugir ou contar pra alguém sobre nós, adivinha? Você morre gata – Jesse pisca sorrindo e se retira em passos lentos para a cozinha.
   Eu não fazia ideia do porquê de Jim ter me posto justo para esse serviço. Ele poderia ter a mulher que quisesse para acompanhá-lo, e, por fim, escolheu justo uma adolescente pobre que não tinha onde cair morta. Isso tudo soava estranho demais. Jesse parecia ser uma pessoa de outro mundo. Aquelas pessoas pareciam ser de outro mundo. Teria que me acostumar em fazer o que era obrigada a fazer ali. O lado bom nisso é que eu irei ter o que comer e serei livre quando tudo isso acabar, como Jesse disse.
   Só de eu pensar em nós dois andando juntos por aí já começo a me sentir estranha. Mas em que tipo de lugares eu acompanharia ele, afinal? Do jeito que ele falava, parecia ser alguém famoso que tinha que forjar seu namoro, casamento ou sei lá o que era aquilo, só para ganhar mídia e status com seu público. Se fosse analisar bem, poderia gargalhar de tudo aquilo. Na onde um homem lindo e mais velho ficaria com uma pirralha igual a mim?
 -Dona Faith – Um chamado me desperta dos meus pensamentos.
   Me obrigo a olhar em sua direção notando que tinha uma senhora baixinha – não muito idosa - me observando. Ela deve ser a tal Carmem que Mike falou.
 -Sim? – Refresco a minha garganta com o que ainda me resta de líquido no corpo.
   Estava morrendo por dentro para poder beber alguma coisa.
 -O senhor Mike me pediu pra preparar algo para você comer. Sua comida já está na mesa – Ela sorri e eu também.
  Nunca fiquei tão feliz em toda a minha vida por falar sobre comida.
 -Obrigada – Me levanto daquele sofá sintético sentindo minhas pernas voltarem a doer.
   Ainda não tinha me recuperado totalmente, mas nada que uma boa noite de sono em uma cama de verdade não resolvesse.
   Acompanho dona Carmem até a cozinha trocando poucas palavras com ela no caminho. Ela parecia ser uma mulher gentil, e me tratou super bem, ao contrário de muitos que eu já conheci por aqui.
   Andando pela casa noto em como aquela mansão era imensa. Fico me perguntando quantos empregados são necessários para limpar toda aquela casa.
   Era tudo tão lindo.
   As decorações, o piso, os cômodos, era tudo tão chique e confortável. Paredes revestidas com cerâmica branca, detalhadas com um toque de tinta dourada no início do teto que desciam até o solo. A escada enorme de mármore com o corrimão de madeira maciça me lembrava daqueles casarões de gente rica que eu vejo na TV.
   Só faltava um piano para ficar tudo perfeito, mas nem de longe Jesse parecia se interessar em tocar.
   Fico de boca aberta com tanta comida que me aguardava naquela mesa. Carmem deve ter preparado aquele “banquete” todo para mais de uma pessoa, pois aquele tanto daria para alimentar uma família inteira. Frutas, suco de laranja, pão fresquinho, manteiga, queijos e mais um monte de comida. Eu até senti vontade de sorrir ao ver toda aquela comida esperando por mim.
 -Coma a vontade, dona Faith. Depois que terminar de comer, eu posso te mostrar o seu quarto – Carmem sorri se retirando e me deixando sozinha com aquelas gostosuras.
   Perco a conta de quantas vezes repeti meu prato em menos de alguns minutos. Toda aquela comida tinha até me deixado de bom humor. Eu nunca comi tanto em toda a minha vida. Me sentia pesada só de pôr os pés no chão.
   Carmem me mostra o quarto em que vou dormir deixando as toalhas organizadas no banheiro para eu poder me banhar.
   Era um quarto bom demais pra ser verdade. Uma janela branca do canto esquerdo da parede sob o peitoril de um baú revestido de um acolchoado com travesseiros por cima. Perfeito para ler. O canto que eu tinha mais gostado ali. Uma cama de casal arredondada só para mim com dois criados mudos de madeira clara dos lados direito e esquerdo, e um abajur azul em cima de cada. Paredes na cor branca, cortinas grandes no tom azul claro e um tapete abstrato no meio. Estava mais do que perfeito.
 -Não se esqueça de me chamar quando precisar de ajuda. Vou estar lá em baixo – Carmem diz antes de se retirar novamente.
   Até que estava tudo bem em me adaptar com tudo isso, mas ainda sim me sentia desconfortável com essa situação. Ainda tinha medo daqueles homens e de Jim.
   Não estava com saudade de casa, mas me sentia curiosa em saber como Jonny deve estar. Provavelmente estaria rondando bêbado pelas ruas e bares da cidade. Ainda não conseguia sentir ódio dele, ainda sentia pena. Jonny era uma pessoa atormentada por espíritos do passado. Acho o que ele tinha se chamava rancor, só não sabia pelo qual motivo. Acho que foi por eu ter nascido e minha mãe ter morrido logo cedo.
    Como se tivéssemos trocado de vidas.
  Tento não pensar nisso prendendo meus cabelos embaraçados em um coque e me dispo em direção ao banheiro. Adentro no boxe deixando a água quentinha cair sobre meu corpo e relaxo os meus ombros. Suspiro de olhos fechados.
   Aquilo era tão bom.
   Me sentia em um spa com aquele luxo todo. Meu corpo já não estava tão roxo como antes, mas ainda continha marcas. Estava dolorida também, e muito cansada.
   Me seco com uma das toalhas que Carmem tinha deixado dentro dos armários e me troco pondo um short não muito curto de algodão junto com uma regatinha rosa que tinha guardado na mochila.
   Me deito na cama sentindo aquele prazer dos colchões amaciarem minha pele, e adormeço em menos de cinco minutos.



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CAPÍTULO 04

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CAPÍTULO 04

JESSE

   JÁ IRIAM DAR duas horas da manhã e eu estava exausto. Eu não aguentava mais ter que cuidar de tudo isso sozinho. Agora com meu pai doente Mike iria se ver comigo. Ele não podia ver um rabo de saia que já sairia correndo e me deixando sozinho com um monte de coisa para resolver. Tudo bem que eu não sou flor que se cheire, mas sabia separar muito bem meus momentos de diversão com coisa séria.
   Eu nunca pensei que fosse virar um Martin da vida.
   Se aquele desgraçado resolver morrer eu estou fodido. Era para eu estar curtindo aquela festa junto com Mike enquanto poderia estar fodendo todas que eu quisesse neste exato momento.
   Suspiro frustrado vendo que já tinha me esgotado.
   Despi-me rapidamente para debaixo do chuveiro tomando uma ducha de cinco minutos e saio com a toalha enrolada na cintura. Seco meu corpo em frente ao espelho e caio de cara no meu colchão sentindo o sono chegar. Só de pensar que amanhã teria um milhão de coisas para resolver me sinto exausto de novo.


   Acordo com a claridade do sol invadindo meu quarto e queimando diretamente meu rosto. Pego o meu celular e vejo que ainda eram oito horas da manhã e eu já escutava uma gritaria no andar de baixo.
   Puta merda, será que eu não poderia mais descansar em paz em pleno sábado?
   Levanto da minha cama depois de fazer minha higiene matinal e me visto. Mike tagarelava no celular feito uma matraca. Semicerro os olhos para ele já vendo que tomaria um sermão hoje, mas paro estático quando noto uma presença de mais alguém ali.
   Uma garota. Definidamente uma garota na qual eu nunca tinha visto em toda minha vida. Os seus olhos negros saltados pelo seu rostinho pequeno de boneca chegavam a ser engraçados pelo susto que eu dera quando apareci de surpresa. Dava até pena pelo jeito que ela me encarava, e eu só pensava em porque diabos tinha uma adolescente sentada no meu sofá.
 -Falo com você quando chegar aqui. O seu filho está aqui puto da vida e eu tenho que desligar – Mike desliga o maldito celular e me fita sem ter o que dizer.
   Ele parecia mais assustado que a garota.
 -Que porra é essa, Mike? – Eu semicerro meus olhos.
 -Desculpa, eu não sabia que Martin tinha planejado isso e... – Interrompo sua fala com a mão.
 -An? Ontem à noite você me deixou sozinho depois de um monte de coisas para resolver. Você disse que estaria comigo nessa, sabe que eu posso te matar se vacilar comigo de novo, não sabe? – Suspiro fundo vendo seu sorriso se esticar.
   Aquele idiota sabia que eu não faria isso ou estaria fodido sem ele. Mike era meu melhor amigo desde que éramos crianças e entrou comigo nesse ramo que chamamos de ilegal desde cedo.
   Estava com a cabeça muito quente para me estressar com ele agora.
 -Calma cara, você esta estressadinho demais. Faz quanto tempo que você não transa? – Mike ri debochado enquanto eu o fuzilo com o olhar.
 -Que papo é esse de eu não sabia que Martin tinha planejado o que? Quem é essa garota? – Aponto para a mesma que ainda me encarava como se estivesse com dor.
   Ele fica sem pálida enquanto eu ainda espero a minha resposta.
 -Você não sabia? – Ele engole a seco.
  Mas que porra estava acontecendo aqui?
 -Não sabia do que caralho? – Grito com raiva.
 -Acho melhor seu papai responder por mim. Eu não quero estar envolvido nisso pra depois você ficar bravo comigo – Bufo sentindo a minha paciência indo embora.
   Eu tinha muita coisa para resolver hoje e não teria tempo para as besteiras que Mike e Martin criavam.
   Quando penso em dizer alguma coisa sou interrompido por Martin entrando pela porta da sala.
  Caramba, o que era agora?
 -Jesse! Dormiu bem? – Martin me cumprimenta com duas batidinhas nas costas sem tirar aquele sorrisinho sacana do rosto.
   Hoje não era o dia em que eu estava com um bom humor para isso.
 -Diga Martin, estou com pressa e tenho que passar na Blue Velvet para resolver algumas coisas com Jim hoje. Kurt chega hoje da França com o carregamento e eu tenho que estar lá para conferir se está tudo certo. Quando chegar aqui eu quero a minha casa vazia – Respondo autoritário saindo em direção a cozinha, mas sou barrado pelo mesmo impedindo minha passagem.
 -Temos que conversar – Martin me lança um olhar sério.
   Rolo os olhos.
 -Hm, fala logo.
 -Fala logo é o cacete, vamos até sua sala e lá conversamos como dois homens civilizados – Ele se vira de costas indo em direção ao meu escritório.
   Bufo estressado e sigo o seu caminho sem mais delongas. Fecho a porta.
 -Diz – Me assento sobre a minha poltrona me servindo com um copo de Whisky.
   Martin se senta em uma das outras poltronas na minha frente e cruza os dedos das mãos umas nas outras e suspira fundo.
   Ele parece velho e cansado. Martin estava adoecendo cada dia mais sem eu poder fazer nada para estabilizar aquele câncer. Não adiantava insistir em faze-lo descansar um pouco e deixar o serviço de lado por um momento, ele era teimoso e sempre está ativo me ajudando no que ainda restava para fazer na empresa. Não queria vê-lo assim, mas sabia que ainda havia cura e ele estaria fazendo quimioterapia. Martin fumaria desde quando eu ainda era uma criança, e foi com ele que aprendi a gostar de fumar também, até essa desgraça foder com todo o seu órgão respiratório.
 -Jesse, você sabe que eu estou morrendo, não sabe? – Sua voz ríspida sai como se estivesse com um ovo na garganta.
   Ele suspira fundo me olhando nos olhos com aquele sentimento ruim se desvairando pelas suas pupilas dilatadas. Travo o maxilar sentindo aquele sentimento de culpa surgir de dentro de mim.
   Eu não sabia o que dizer, apenas continuo em silêncio esperando que ele risse debochadamente de o que acabou de dizer, como ele sempre faz. Mas dessa vez, não disse nada. Ele ainda estava ali, com aquela feição desnivelada pelo cansaço das cirurgias. Sinto como se uma bola de fogo tivesse atravessado minha garganta lentamente.
 -Você não pode – Murmuro quase sem voz – Não estou pronto para aguentar isso sozinho pai, sabe disso – Engulo a seco.
 -Não posso fazer nada em relação a isso. A porra do câncer está me matando e eu só tenho apenas alguns dias ainda de vida. Vou deixar tudo sobre o seu comando. Preparei você a vida toda para isso e não é agora que você vai dar uma de cagão e fugir pra debaixo da saia da mamãe. Já está se virando sozinho. Olha pra você sentado nessa poltrona, bebendo o meu Whisky como se fosse um puto de um fodido. Você sabia que algum dia isso aconteceria, e eu tenho que fazer isso antes de partir – Ele tosse simultaneamente com um lenço branco entre as mãos que acabara de tirar do bolso.
   Eu não queria que ele fosse embora, não agora. Não sentia que fosse a hora certa de deixar isso fluir.
   O meu primeiro cigarro, meu primeiro Whisky, minha primeira transa, meu primeiro tiro e agora o nosso primeiro e último adeus. Isso faz eu me sentir mal. Martin me daria um belo de um murro certeiro na cara caso me visse chorar ou transmitindo algum sentimento sobre isso. Certamente ele fora me criou para ser igual a ele, mas acabei me tornando pior.
 -O que eu devo fazer? – Suspiro fundo dando um gole na minha bebida.
 -Aquela menina sentada na sala... – Ele coça a nuca.
 -O que tem ela? – Pergunto entediado.    
 -Seu nome é Faith, e eu quero que você fique com ela – Martin responde sério.
   Quase cuspo minha bebida de volta para o copo depois daquela última frase. Rio divertidamente daquela piada.
   Caralho, aquela foi à frase mais ridícula que já ouvi em toda minha vida. E a pior parte de toda a história é que ele não estava rindo junto. Sério isso?
 -Acha que estou brincando?
 -Está brincando – Semicerro os olhos encarando isso a sério.
   Só podia ser brincadeira ou alguma piada que o velho queria me fazer antes de morrer. O que ele estava pensando? Agora eu sei por que dona Claire vinha com aquele papo de arrumar uma mulher desde cedo para mim. Porra, tudo isso fazia parte de um plano que eu não fazia ideia.
 -Nem fodendo.
   Então era isso que ele estava planejando esse tempo todo? Me obrigar a casar com uma pirralha? Sem chances de isso acontecer.
 -Cala a boca e escuta cacete! Não muda de assunto – Martin me fuzila com um olhar sério.
   Ajeito minha camisa no meu corpo e bufo.
 -Quando eu tinha a sua idade... – Ele começa e eu resmungo um palavrão vendo aquela conversa voltar de novo. Pensei que ele nunca mudaria de assunto – Cala a boca e ouça-me pelo menos enquanto eu ainda estiver vivo. Quando eu morrer não vou mais estar aqui para te encher o saco, então pelo menos me ouça por alguns minutos – Martin grunhe.
   Desvio o meu olhar de aversão para o outro lado da sala sentindo as minhas veias do pescoço saltarem pela segunda vez naquele dia.
   Estava puto, mas também estava tenso pela morte próxima do meu pai. Eu nunca mais o veria novamente depois de alguns dias e ele me apronta uma dessas.
   Como vou sair dessa?
   Sem cogitação de isso acontecer.
   Sem falar que aquela garota não fazia o meu tipo. Preferia uma mulher mais madura e menos lesada como ela. Uma vadia qualquer se encaixaria por algum momento, pelo menos me satisfaria quando precisasse.
 -Sei muito bem o que está pensando, e sim, você está sendo obrigado a fazer isso. Como eu estava dizendo, na sua idade quando entramos para a máfia, nós teríamos que arranjar uma mulher para o cargo de “esposa” para quando você tomasse o controle não deixasse a desonra e a vergonha na família e ter um herdeiro... — Ele para por um momento para suspirar e se levanta da sua poltrona. Martin rodopia o centro da sala em círculos sorrindo como se tivesse lembrado de alguma coisa – Quando seu avô se foi eu tinha a mesma idade que você, vinte e quatro anos. Eu estava sozinho e a única esperança que eu via em mim era a sua mãe, jovem e bonita. Não existia outra igual. O seu avô tinha me dito que ela seria minha pretendente antes de morrer e que ficaria ali para eu respeitar até o certo momento. Infelizmente, houve as desavenças e nós nos separamos dois anos depois de você nascer, e hoje você está aí, passando pela mesma coisa que eu passei – Martin pausa para me fitar.
   Eu ainda estava bravo, com vontade de tacar a primeira coisa que visse na minha frente em sua direção. Não conseguia ao menos expressar o quão puto eu estava, então continuei quieto sentindo a sua aproximação sobre a minha mesa.
   Apoio minha mão debaixo do meu queixo com desgosto. Ainda queria ouvir o que ele tinha a dizer até o fim para não perder nada.
 -Não precisa casar com ela, apenas finja que ela é sua mulher por algum tempo até você se acostumar com a ideia. Ela tem dezesseis anos e eu sei o que você deve estar pensando, mas acho melhor assim. Tudo bem que não era para ser tão jovem assim, mas Jim é burro demais para o cargo que eu dei para ele. Se eu deixasse você para escolher sua futura esposa eu estaria fodido. Não vejo você com uma mulher decente desde que Sienna e você se separaram e... – Interrompo sua fala.
   Lá vem ele com aquele papo de novo. Acho que Martin estava passando tempo demais com Claire.
 -Sienna não era descente, era só mais uma vadia disfarçada, e foi a única namorada que tive a minha vida inteira. Você fala como se tivéssemos nos casado, eu nunca cometeria esse erro – Rio daquela besteira toda.
   Até que Sienna era uma boa garota, e uma das mulheres mais gostosas que já fiquei, mas não consigo ficar preso a uma mulher por muito tempo. Não me julgue, mas me sinto entediado. Ainda me lembro de quando terminamos e ela ficou puta comigo. Foi cômico.
 -Se é assim que você acha... – Ele ri sem vida – Você vive por aí nessas festas e rachas sem se preocupar em quantas já dormiu em uma noite que não parou para pensar que esse dia chegaria. Faith é uma menina doce, perfeita para o cargo de nora. Claire vai adorá-la – Martin sorri empolgado.
   Eu sabia que tinha a participação da minha mãe nessa história, não podia mesmo faltar.
   Eu não queria desrespeitar o velho, mas me casar em plenos vinte quatro anos estava fora de cogitação. Não conseguia me focar nisso agora, tinha que ter um tempo de descanso para pensar em tudo isso.
 -Dona Claire sabe de onde você tirou essa garota? – Ergo as sobrancelhas debochado.
   Com certeza tinha que ter o Jim no meio de tudo aquilo também. A minha mãe o odiava, e confesso que eu também não ia com a cara do italiano.
 -Claire não deve saber de nada sobre isso. Você vai ficar na sua e fazer o que eu mandei, pronto acabou porra – Ele tosse mais uma vez tirando o lenço do bolso.
   Era como se sua garganta estivesse sendo possuída por algo maligno, no qual estava o matando a cada tossida. Martin podia parecer um homem normal de primeira vista, mas sabia que o velho voltaria até dos infernos para me caçar caso não fizesse o que ele mandasse.
   Não acredito que terei que fazer isso. Estou fodido mesmo.
 -E o que eu vou fazer com essa garota? Comprar brinquedos pra ela se distrair enquanto eu estiver fora? Isso só pode ser brincadeira – Rio pelo nariz afagando os meus cabelos bagunçados.
   Eu estava tendo que concordar com aquilo, parecia até surreal.
 -Larga de ser ignorante. Na idade dela você já era um demônio, então pega leve com a menina. Eu não sei de muita informação sobre ela então trate de descobrir você mesmo. Quero ter certeza de que não será um vagabundo enquanto estiver aqui. Ela nem é tão nova assim, fará dezessete dentro de alguns meses – Rio mais uma vez apoiando a mão no rosto.
  Isso era uma piada mesmo.
 -Nem é tão nova assim, apenas quase oito anos mais nova do que eu – Ergo as sobrancelhas.
 -Sua mãe é onze anos mais nova que eu, e sinceramente, acho melhor assim – Ele diz com convicção.
   Então o velho entendia do assunto.
 -Eu tenho que ir. Tenho algumas consultas naquela merda de hospital – Martin resmunga.
 -Você não deveria estar internado? – Pergunto com um olhar desconfiado.
 -Uma ova. Vou morrer daqui alguns dias mesmo, pra que ficar internado? Quero morrer longe daquela droga – Martin tosse mais uma vez com o seu lenço na boca.
   Aquele estresse todo só me fez pensar na minha família e em Martin indo embora. Quem saberia disso antes de mim? Já conseguia prever sua doença se alastrando pelo seu olhar. Mas quem tomará o cargo de responsável da família seria eu? Tudo bem que eu já saberia disso faz tempo, mas só agora me cai a ficha.
   Serei o novo manda chuva de Miami, e pensar em como isso faz eu me sentir importante era fodidamente prazeroso. Ser um dos maiores gângsteres dos Estados Unidos não era tão fácil assim, mas me renderia boas mulheres em minha cama mais tarde. Por onde eu passava era reconhecido por todos, isso me fazia delirar pela adrenalina. Não podia perder o foco agora. Eu não perderia essa chance de honrar o meu nome.
   Ainda mais com aquela garota que seria um empecilho na minha cola.
   É tanta coisa para raciocinar que mal tive tempo para me divertir um pouco. Talvez hoje seja um dia perfeito pra pensar nisso.
 -Não se esqueça, Jesse. Faça isso por mim, pela sua mãe e pela sua família – Martin murmura com altivez.
  Molho os lábios sentindo meus ombros se encostarem sobre o estofado da poltrona até direcionar meus pensamentos sobre a tal garota.
   Eu estava tenso com aquilo tudo. Mal tinha acabado de receber um monte de responsabilidades de uma vez só e já estava com outra nos meus ombros. Tentaria o meu máximo para não me preocupar com isso. Eu tinha que cuidar da minha mãe e do sobrenome da família, não teria tempo para levar ninguém para creche. Acho que isso era o que mais contava agora.
 -Eu o farei pela família, mas não vou me casar com ninguém senhor Jackson... – Sorrio de canto dos lábios.
   Ouço o som do seu riso debochado se alastrar sobre a sala. Martin me entendia muito bem. Não é a toa que hoje sou seu clone.
 -Vai fundo – Essas foram as suas últimas palavras antes de deixar a sala.
   Martin, Martin, Martin.
   Quem seria ele se não me deixasse ferrasse antes de morrer? Poderia estar velho, mas ainda era inteligente. Não nasci para casar, muito menos ter filhos. Cuidar de crianças e pertencer a uma mulher só estava fora de cogitação agora. Eu não desonraria meu pai, mais também não farei exatamente como ele pensa que farei.
  Não era minha praia brincar de marido e mulher.

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