CAPÍTULO 01

AVISO: Se você estiver lendo isso pelo celular e quiser visualizar modo computador, vá até o final das postagens do blog (final do blog) e clique: "visualizar versão para web" :)


CAPÍTULO 01

   EU ERA UMA garota de sonhos até minha vida acabar de vez. Eu fiz tudo o que pude fazer, não sei se foi o suficiente, mas pelo menos eu sobrevivi.
  A minha vida se tornará um inferno maior neste calor na Flórida. Meu emprego como garçonete na lanchonete de Bill estava me esgotando aos poucos. Não só fisicamente como emocionalmente também. Sentia como se a minha alma estivesse sendo levada com o vento. Me sentia morta. Uma agonia de me sentir-me esquecida mais do que eu já era naquela cidade de Jacksonville repleta de pessoas.
   Parece que a faculdade estava fora do meu alcance. Pelo jeito terei que passar o resto da vida tendo que pagar as dívidas sozinha junto com a clínica de reabilitação de Jonny lá em casa.
   Pai não seria a palavra certa, mas de certa forma eu tenho pena do que ele fora se tornou sem a minha mãe. Não sei de nada sobre isso, mas cada vez que é citada a palavra “mãe” naquela casa era motivo para um tapa na cara. Os meus hematomas pelo corpo não eram muito graves, mas as laterais da minha barriga ainda doíam, o que aumentava minha vontade de desistir de tudo isso. Desde que completei dez anos de idade a bebedeira de Jonny vinha aumentando cada vez mais e o seu rancor por sua vida era descontado em mim.
   Eu já tinha me acostumado com tudo aquilo: acordar, ir para o colégio, voltar para casa, fazer comida para Jonny e ir para o trabalho. Era raro não vê-lo bêbado, e quando está sóbrio está mal humorado descontando sua frustração em ignorância. A frustração já tinha se amiudado sobre mim, sobre nós dois. Para uma garota de dezesseis anos isso já era muito.
 -Faith, não se esqueça da mesa número quatro – Sorrio para Bill antes de sair com minha bandeja.
   Bill foi um homem que caiu do céu. Estava no momento certo e na hora certa quando eu precisava de um emprego para pagar as dívidas que meu pai fazia.
   Comecei a trabalhar aqui com quinze anos apenas, e apesar de Bill ter deixado claro no anúncio que queria alguém com experiência eu tive de implorar para o mesmo me dar uma chance. Para isso tive que explicar a situação de meu pai, o que me deu uma vantagem.
   Ganhava um pouco mais que um salário mínimo e ainda um seguro saúde.
 -Mais alguma coisa? – Aponto a minha caneta para o bloco de notas.
 -Não, muito obrigada menina – O senhor grisalho pisca me entregando uma gorjeta na mão.
   Sorrio fraca voltando para trás do balcão pegando uma flanela e um spray com álcool e começo a limpar as mesas vazias do alojamento.
   Já eram sete e meia da noite e a lanchonete fechava às oito. Quanto mais o tempo passava, mais o som daquele relógio trazia uma agonia para os meus joelhos que não me aguentavam mais em pé. Já tinha terminado de limpar as mesas e só faltavam dois clientes para irem embora. O meu dia já estava se esgotando e os meus pensamentos perturbadores sobre Jonny já começavam a me atormentar.
   Bryan era meu único amigo nessas horas, e eu o amo por isso. Infelizmente ele não mora mais do meu lado. Tínhamos tido uma infância juntos antes dele e sua família se mudarem para Oregon. Nunca deixaria ele saber sobre Jonny e as suas agressões constantes. Certamente ele o denunciaria para a polícia e não era isso que eu queria. Eu não queria apanhar também, mas acho que não conseguiria imaginar Jonny na prisão. Como já tinha dito, tenho dó do que ele se tornou. Eu não o odeio, não consigo, mas não sei quanto tempo mais aguentaria viver nessa mesma vida medíocre.
   O meu corpo é fraco e meus os sentimentos estavam se esgotando. Eu me sentia cada vez mais angustiada. Jonny já me pegou várias vezes chorando pelos cantos da casa, o que lhe rendeu boas risadas. Não consigo passar uma noite sequer sem chorar antes de adormecer. As minhas lágrimas eram frequentes e os meus soluços me sufocavam. Sentia-me velha com dezesseis anos. O cansaço bateu mais cedo em minha porta e não tinha previsão de ir embora. Cada piscada automática era como uma pancada na minha cabeça.
   Já tive dias em que me cansei, como semana passada quando Jonny vinha me bater com sua cinta de couro. As minhas pernas ainda latejavam de dor e eu ainda posso escutar meus gritos ecoando na minha cabeça.
   “ –Por favor Jonny! Pare! Por favor Pare!”
   Isso me perturba às vezes, e vinha como um pesadelo nos meus sonhos pela noite. Às vezes sentia raiva, medo e pavor. Eu tinha medo de ficar a sós com Jonny sobre o mesmo teto, tinha medo de algum dia isso se torne algo pior. Socos, chutes, cintadas... o que poderia ser pior? Eu sentia dor de cabeça só de pensar nisso.
 -Faith? Já pode ir embora, querida. Eu cuido das últimas mesas – Bill aparece repentinamente me acordando dos meus pensamentos.
 -Não, não Bill. Eu cuido disso antes de ir... – Ele me interrompe sem tirar o sorriso do rosto.
  Como pode ser tão feliz e generoso?
 -Você está à meia hora sentada nessa cadeira. São só duas mesas, eu cuido disso – Ele pega a flanela e o spray de cima da mesa e me deixa sozinha ainda um pouco assustada.
   Eu não deveria pensar muito nisso, mas era quase impossível. Já posso sentir aquele sentimento de tristeza me perturbar e as minhas pernas fraquejarem.
   Encaro o relógio pendurado na parede observando o ponteiro marcando sete e quarenta e cinco e ponto da noite. Bill me deixava ir embora mais cedo da lanchonete às vezes. Ele achava que era muito nova para andar sozinha à noite ao voltar para casa, mas mal sabia ele que eu preferia vagar perigosamente pela noite ao invés de chegar mais cedo em casa.
  Troco de roupa no banheiro sem pressa alguma tirando meu uniforme de cor branca e vermelha e pondo minha calça jeans e minha regata. Pego minha bolsa e saio da lanchonete depois de me despedir de Bill andando como uma lesma pela rua.
   Jacksonville era um lugar tranquilo há essa hora, pelo menos eu nunca fui assaltada. Eu via bastante movimento de casais andando de mãos dadas pela beira da praia. Não consigo me lembrar da última vez que pude aproveitar aquela água cristalina, acho que foi quando Bryan ainda estava aqui, quando eu era uma pessoa menos preocupada em não apanhar quando chegasse em casa.
   O vento gélido se debatia com os fios soltos dos meus cabelos anovelados em um coque. A lanchonete de Bill não ficava muito longe da minha casa, apenas uns dez minutos andando vagarosamente.
  Molho os meus lábios antes de rodar as chaves pelo trinco da porta de madeira sem escutar nenhum barulho. Jonny deve estar rondando pelos bares da cidade há essa hora, ainda mais numa sexta-feira. Eu ainda dava graças a Deus por nós termos uma casa própria. Se tivéssemos que depender de aluguel já estaríamos no olho da rua e passando fome. Mas para falar a verdade, eu esperaria isso em algum futuro próximo. É horrível ter de pensar assim, mas quando você está acostumada com coisas ruins acontecendo na sua vida você deve imaginar o pior para ver que a sua situação presente não é tão desesperadora desse jeito. Pelo menos não nesse presente.
   Não tinha muita louça para lavar, apenas alguns copos e alguns talheres que fora foi deixado de manhã no café. Eu não me preocupo muito, apenas subo para o meu quarto e deixo para lavar depois.
   Jogo a minha mochila na cama sentindo o peso e a dor nas minhas costas atingindo a minha espinha. Corro para o espelho de trás da porta vendo que ainda tinha um arroxeado ali. Não doía muito, apenas quando me movia ou apertava aquela área. Ter que enfrentar isso todos os dias da dava vontade de chorar, berrar ou gritar e sair correndo. Sentia-me um lixo, um monstro com olheiras de noites mal dormidas. Apavorada e fraca, eu estava muito fraca. Suspiro fundo antes de ter coragem para me despir. O segredo era não me olhar no espelho ou entrava em desespero total. Da última vez que me olhei nua de frente ao espelho essa foi a minha reação a me ver cheia de marcas feias pelo corpo.
   Tomo banho de água fria esfregando minha pele minuciosamente para não me machucar, lavo o cabelo com shampoo de morango e passando condicionador em seguida. Desligo o chuveiro me enrolando na toalha branca pegando um pijama largo qualquer no meu armário e me vestindo. O relógio do meu celular marcava oito e meia da noite de uma sexta-feira e eu estava aqui, presa no meu quarto sem ter para onde ir.
   É nessas horas que eu costumo refletir sobre a minha vida e o porquê de sua existência. Eu não era uma garota de amizades, só tinha uma ou duas colegas de escola com quem eu conversava às vezes. Eu até gosto um pouco dessa solidão, mas não acho que isso seja bom. Vejo aquela dupla de amigas se abraçando e contando segredos uma para outra, saindo por aí em festas curtindo os feriados, e sinto um pouco de inveja. Nunca tive amigas verdadeiras; já me decepcionei muito. Eu acreditava que era para sempre e na verdade só era mais uma querendo saber da sua vida para sair contando por aí.
   Ninguém sabe sobre Jonny, quero dizer, sobre suas agressões. Todo mundo da escola sabe que ele é um bêbado, mas são poucas as pessoas que tiram sarro disso. Acho que estão ocupadas demais para se preocupar.
   Já sofri bullying, mas isso foi apenas uma época do primeiro ano. Já estou no segundo e não sei se me sinto aliviada ou desesperada em saber que só falta um ano para eu me formar. Já me inscrevi em vários testes para a faculdade, mas só por treinamento mesmo. Eu não diria que sou uma aluna exemplar e muito menos uma encrenqueira da escola, mas tento não trazer muito dos meus problemas de casa para a sala de aula, apesar de isso me dificultar muito nas lições.
   Bryan me distraia na maioria das vezes. Minhas últimas palavras com ele foram hoje de manhã, sempre me ligando pelo menos cinco vezes por semana fora as mensagens. Eu não queria preocupá-lo com os meus problemas. Eu tinha que resolvê-los sozinha, querendo ou não.
  Eram onze horas da noite e Jonny ainda não havia chegado. Eu estava com um pressentimento ruim que vinha do talo da garganta até o estômago me fazendo virar e revirar sobre a cama. Ele fazia isso durante quatro dias na semana, sumia pela noite e me deixava sozinha em casa. Sabia que ele estaria em algum bar por aí, mas não desconfiaria de ele usasse algum tipo de droga. Nunca houve pistas disso. Às vezes eu me perguntava em como conseguia dormir com toda aquela aflição e medo. As minhas noites eram feitas de choro e desespero, eu sentia isso me destruir. Sem parar para perceber já escorria uma lágrima pela minha bochecha. Aquela sensação ruim tinha voltado. Estava com receio de acordar Bryan para conversar, mas não queria perturbá-lo de noite.
   Viro-me para o outro lado esquerdo da cama sentindo o cansaço me invadir e acabo adormecendo com a imagem da minha mãe na cabeça.

Nenhum comentário:

Postar um comentário