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CAPÍTULO 02
ACORDO
ASSUSTADA com um estrondo vindo do andar de baixo quase dando um pulo da cama.
Ponho a mão no meu peito sentindo o meu coração querer sair pela boca e o suor
escorrer pelo meu corpo. Pego o meu celular debaixo das cobertas vendo que já
eram quatro e doze da manhã e eu não tinha visto Jonny chegar. Deve ser ele
vagando bêbado pela cozinha.
Eu tinha que ter certeza, mas deveria fingir que
estava desmaiada na cama. Pego o meu estilete na gaveta e acendo as luzes do
corredor para poder enxergar melhor. Aquela era a única coisa pontiaguda que eu
tinha no meu quarto que eu tinha usado para trabalhos de escola, mas cortava
melhor do que qualquer faca.
Mais um barulho de vidros quebrando no andar de
baixo vindo da cozinha. Sinto minhas pernas trêmulas a ponto de cair da escada.
O meu sexto sentido me alertava para eu voltar para cama, mas não o fiz. Desço
as escadas planas sentindo meus pés descalços tocarem o chão gélido do mármore
e o choque da minha mão quente entrar em contato com o metal sólido do
corrimão. Mesmo com a visão da sala escura eu pude enxergar onde estavam os
móveis até conseguir chegar à cozinha.
Arregalo os olhos ao acender as luzes e ver tanto
vidro de pratos e copos quebrados no chão. Até bebidas alcoólicas que Jonny
guardava na geladeira, todos no chão. Antes de eu conseguir processar o que
tinha acontecido eu sinto uma pancada forte na nuca da cabeça me fazendo cair
de bruços no piso gelado.
Sinto uma dor dos infernos me sufocar por
inteira. Passo as mãos sobre aquela região atingida notando um pouco de sangue
escorrer por meus dedos em uma visão turva. Estava tudo embaçado e eu só
conseguia enxergar sombras escuras de uma silhueta me tirando do chão pela raiz
do cabelo. Deixo um grito estridente escapar com aquela dor forte me
enfraquecendo. Sou jogada fortemente contra parede sentindo o osso da minha coluna
latejar com tamanha força. Caio de joelhos sobre piso de azulejo notando minha
visão voltar um pouco ao normal. Sinto meu corpo sendo puxado novamente pelo
braço me fazendo cair em cima dos cacos de vidro no chão.
Solto mais um grito ao sentir alguns vidros machucarem minha coxa.
-LEVANTA!
SUA VAGABUNDA! – Jonny berra apontando o dedo no meu rosto.
Agora
eu tinha a visão de seus olhos avermelhados cheios de raiva como se estivesse a
ponto de me matar. Sinto um calafrio da ponta dos meus dedos do pé até a
cabeça.
Ele
estava bêbado e nunca tinha o visto tão forte assim. Até eu conseguir processar
isso tudo acabo levando um soco no rosto sentindo a ardência na minha bochecha.
Estava
tão fraca que mal tinha forças para me proteger ou gritar. Jonny me acerta com
mais murros e chutes até me fazer sentir o sangue do meu nariz chegar até a
minha boca. Solto um gemido fraco de dor com a única força que ainda me
restava. Noto Jonny cessar os socos escutando apenas sua respiração
descompensada. Eu não sabia se gritava por socorro ou se chorava, mas nem
forças para isso eu tinha mais.
Eu
estava com medo de olhar em seus olhos, então continuo estirada no chão
sentindo os cacos de vidro perfurarem cada vez mais minha pele.
-LIMPA!
LEVANTA E LIMPA TUDO ISSO SUA VAGABUNDA – Jonny me conduz como uma boneca me
deixando de joelhos no chão.
Solto
mais um grito forte com os cacos se afundando para dentro da minha carne como
se a minha vida acabasse ali. Já berrava de dor e de tanto chorar, será que
ninguém mesmo me escuta? O meu único apoio era as minhas mãos me segurando
contra o chão, mas tinha certeza que desmaiaria só com mais um soco.
-LIMPA!
– Sinto um chute forte na minha costela me destruir por inteira.
Tento
respirar fundo para pegar fôlego e agarrar alguns pedaços de vidro que estavam
na minha frente.
As
minhas lágrimas caiam sucessivamente deixando a minha blusa molhada juntamente
com respingos de sangue. Estava sendo uma tortura pegar caco por caco em cima
de outros pedaços de vidros no chão com dores turbulentas se difundirem sobre
mim.
-ONDE
ESTA ELA? O QUE VOCÊ FEZ COM A MINHA FAITH? – Jonny grita como se sua voz
estivesse falha.
Era
claro que ele estava falando da minha mãe.
Eu
nunca tinha o visto tão violento assim, e fora nunca fui tão espancada desse
jeito. Senhor será que ele me escuta?
Soluçava baixinho catando os vidros e rezando para não sair mais machucada
ainda. Sentia-me fraca e dolorida como se um trator estivesse passando por cima
de mim.
Jonny
cambaleia até a sala de estar me deixando um pouco mais aliviada. Aquela era minha única chance de sair viva.
Coloco
os cacos em silêncio de volta no chão e me apoio na bancada da cozinha. Solto
baixinho mais um gemido de dor sentindo os meus joelhos tremerem. Estabilizo-me
segurando com força na bancada e me reerguendo para cima com cautela. As minhas
pernas não tinham mais vida, o meu coração queria sair pela boca, mas tive que
aguentar até conseguir dar pelo menos dois passos. Dou a volta na bancada ainda
apoiada na mesma para não cair e rezando em pensamento para Jonny não voltar
tão cedo. Tomo coragem e enfrento o chão sozinha como uma garota destemida
mesmo não conseguindo nem piscar direito.
Corro
o mais rápido que posso para as escadas subindo sem olhar para trás e não vendo
mais vestígios de Jonny pela sala. Aquele homem não me machucaria mais, não mais.
Entro
depressa no meu quarto em silêncio e tranco a porta da mesma. As minhas mãos
tremiam e estavam esbranquiçadas, ainda com marcas de sangue da minha nuca na
palma. Sem tempo para pensar eu agarro a minha maior mochila de cima do armário
tirando o pouco de coisa que tinha ali e socando algumas roupas para dentro da
mesma. Engoli a seco ainda soluçando. Coloco tudo de pressa como uma
desesperada. Arrasto minha caixinha de dinheiro que guardei das minhas
economias e gorjetas da lanchonete enfiando na mochila também. Eu não sabia o
quanto de dinheiro tinha ali, mas me garantiam uma passagem de ônibus e comida
por até dois dias, o que já era bom.
Soco
tudo na mochila junto com o meu celular e me visto rapidamente com uma calça
jeans e um moletom velho qualquer para disfarçar meus machucados. Era uma dor
infernal a cada passo eu dera. Era como se acabassem de me esfaquear sem pudor,
mas não podia me deixar levar por isso. Eu tinha que sair daqui hoje ou essa
seria a minha última noite viva.
Limpo
o meu sangue com uma toalha úmida da água da pia e calço os meus tênis em
segundos. A minha respiração poderia ser escutada há quilômetros de distância,
e o meu suor escorria como água descendo pelo meu peito. Estava me arriscando
no meio dessa noite para fugir para longe sem garantia do que me esperava nas
ruas. Tudo o que eu tinha em mente era apenas tentar sobreviver e ter algum
futuro longe daqui sem ser mais machucada do que já estou. Eu não podia olhar
para trás, senão não teria coragem. Jonny me odeia e disso eu já tinha certeza,
mas ele precisava de mais ajuda que eu, apesar de eu não ter nada a ver com
seus problemas... ou tenho? Eu
apenas sei que eu não posso mais ficar naquela casa para servir de saco de
pancadas e de empregada para Jonny.
Pensar
em como isso me dói me faz sentir vontade de morrer por alguns dias, por
algumas semanas ou até mesmo por alguns anos.
Termino
de fechar o zíper da minha mochila sentindo aquela amargura queimar minha
garganta. Eu estava decidida de que era isso que eu queria para mim: viver
intensamente sem me preocupar com outras pessoas além de eu mesma. Estou
vivendo a minha adolescência inteira em uma depressão que mais parece um
pesadelo, o que vem de pior lá fora seria apenas mais uma fase de outro nível
para mim.
A
casa continuava em silêncio até eu escutar o som das mobílias sendo jogadas no
chão vindo do quarto de Jonny.
Essa
seria a hora perfeita para fugir.
Eu não seria tão burra em sair pela porta de
entrada, pois com certeza iria ser pega, então ponho minha mochila nas costas e
me penduro no beiral da janela do segundo andar. Não era tão alto assim para
uma desesperada como eu. A minha preocupação agora era apenas em fugir daqui,
fugir para bem longe.
-FAITH!
– Ouço Jonny berrar.
O
seu tom de voz fazia as minhas pernas bambearem, ainda mais com os barulhos dos
móveis e de seus passos se expandindo pelos
corredores. Estava no meio de uma encruzilhada onde eu só tinha duas opções:
sobreviver ou morrer. Sem pensar duas vezes eu fecho os olhos e me jogo.
Droga, droga, droga!
Mordo a palma da minha mão para não gritar
com tamanha dor que sinto dos meus joelhos se desfazendo. Sinto uma tontura forte se alastrar por alguns
segundos até eu conseguir me recompor. Levanto rapidamente do gramado me
segurando pelas paredes até me ver completamente sozinha naquela rua escura no
meio da noite. Olho para trás antes de partir para sempre e tudo que ouço são
barulhos de mobílias sendo jogadas no chão até cessarem por um longo segundo.
Deixo
lágrimas e lágrimas escorrerem pelas minhas bochechas e saio às presas mancando
pelas ruas como se tivesse sido atropelada, o que não era muito diferente da
minha situação atual. Sentia a dor se difundir pelo meu corpo a cada passo que
eu dava pelo asfalto. Cada pontada, um grunhido. Cada grunhido, uma pontada.
Quando
penso que não podia piorar sinto gotas e mais gotas de chuva se multiplicarem
pela estrada até começar a chover de verdade.
Ótimo,
eu estava completamente ferrada e com medo. Acabara de andar pela rua que
passava todos os dias para ir trabalhar sem ver uma alma viva. A chuva já
estava se alastrando e eu só conseguia ver comércios fechados e as luzes dos
postes de iluminação.
Eu
já começava a me sentir mal; com sono, com fome, cansada e desesperada para não
morrer naquela rua. Eu sei, poderia ser pior, mas escolhi não apanhar mais.
A
rodoviária não era tão longe dali, ficaria apenas alguns minutos andando, mas
no meu caso mancando e gemendo de dor o caminho inteiro. A rodoviária da cidade
era o ponto onde mais tinha moradores de rua dormindo todas as noites. Poderia
ser perigoso, mas eu não tinha outra opção melhor.
A
essa altura eu já me encontrava encharcada, porém a chuva já tinha se cessado
um pouco, exatamente quando finalmente eu chego ao meu destino. Hoje não era
meu dia, com certeza, mas pelo menos eu tinha dinheiro suficiente para fugir
daqui. Comer que seria um dos meus problemas, mas arrumaria um emprego depois -
ou, pelo menos, tentaria.
Como
eu já tinha imaginado estava quase vazio, apenas com algumas pessoas cansadas
pela cara de sono esperando seus ônibus e alguns míseros atendentes de plantão
trabalhando. Eu devo estar parecendo uma louca pelas feições assustadas das
pessoas. Eu não poderia entrar em um ônibus assim, me trocaria no banheiro
feminino e depois compraria minha passagem. O máximo que poderia acontecer se
aparecesse assim para a atendente era ser barrada, o que eu não queria que
acontecesse.
Tranco-me
em um dos toaletes e jogo minha roupa molhada em uma sacola de plástico que
tinha guardado na minha mochila e me visto rapidamente.
Ainda
tinha algumas marcas de sangue quase secas pelas minhas coxas dos cortes que os
cacos de vidro fizeram, mas consigo limpar apressadamente com papel higiênico
umedecido como se nada tivesse acontecido. Checo as horas no meu celular
calculando que já faltavam dez minutos para cinco da manhã, o que resultaria em
uma longa viagem de dez horas para Miami.
Sim, Miami. O melhor lugar que eu vejo para
ir na minha situação. Venho imaginando nos meus pensamentos loucos todas as
noites em como seria fugir de casa e Miami era a minha primeira opção do topo
da lista de lugares que eu fugiria. Eu não faço a menor ideia de como vou
sobreviver lá, mas pelo menos Miami teria mais lugares para se esconder do que
em Jacksonville, ainda mais do meu pai.
Arrumo meus cabelos resvalando-os com os
dedos e desemaranhando os nós dos meus cachos que ainda não tinham se secado.
Tento disfarçar os machucados do meu rosto com um pó que eu tinha na bolsa, a
única maquiagem que eu tinha guardada para trabalhar na lanchonete e não
parecer um zumbi. Respiro fundo antes de me olhar no espelho daquele banheiro
de fim mundo e me sinto ainda pior. Eu não estava me sentindo bem, nem por
dentro e nem por fora. Só tenho apenas dezesseis anos e a minha vida já estava
um inferno. Não tinha mãe, não tinha irmãos ou irmãs e agora não tinha pai. Na
verdade, nunca tive.
Olhando-me
nos olhos através daquele vidro me sinto sozinha em um mundo com bilhões de
pessoas. Eu não podia mais me expelir nesse mundinho em que eu vivo. Eu tinha
que enfrentar isso sozinha amadurecendo mais cedo do que devia. Se não fizer
por mim, ninguém mais o fará.
Seco
uma lágrima que escorria pela minha bochecha antes de sair do banheiro e pego a
minha bolsa. Respiro fundo antes de dar o próximo passo após confirmar o meu RG
com a moça alta e morena que me fitava vigorosamente do outro lado do vidro daquele
gabinete minúsculo. Não sabia se estava com uma cara de que tinha acabado de
fugir de casa, mas que estava com uma cara de coitada, certamente estava. Olhar
nos fundos dos olhos daquela mulher me dava calafrios e suor na palma das mãos,
e quando penso que ela me daria um chute na bunda e chamar a polícia ela apenas
sorri gentilmente me entregando minha passagem junto aos meus documentos.
-Tenha
uma boa viagem moça – Diz a morena cujo nome não me importei em saber.
Ela
sabia que eu estava sozinha, pois não havia nenhum parente comigo, nem um
acompanhante de despedida. Mas acho que ela não pareceu se importar, já que a
única coisa que certamente desejava era uma cama depois de tanto trabalhar.
Será
que aquela seria a minha rotina futuramente? Estava tão preocupada que mal tive
tempo para pensar em o que faria em Miami quando chegasse lá. Dormiria nas ruas
e seria esquecida como todas as outras pessoas inúteis no mundo. Isso não seria
tão insignificante para mim já que sempre lidei com isso. Ser ninguém estava
nos meus princípios aparentes, só teria medo de ser mandada de volta para meu
pai, o que nunca deixaria acontecer novamente.
O
próximo ônibus para Miami sairia em dez minutos. Aproveito o meu tempo curto e
compro um salgado na máquina de salgadinhos no canto daquelas cadeiras
almofadadas da espera de ônibus. Eu não costumava a comer muito, então isso
seria suficiente para metade do meu dia.
Embarco naquele ônibus azul-marinho sentindo
um frio na barriga me fazer revirar o estômago. Olho para os lados e só vejo poucas pessoas dentre eu e o motorista
com feições cansadas. A minha vantagem era de que eu dormiria em paz por, pelo
menos, um dia sem ninguém me perturbando ou com medo de ser espancada quando
acordar. Tudo o que eu queria agora era descanso, nada mais.


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